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Mercados públicos: arquitetura do encontro e da troca

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2025

Descrição enviada pela equipe de projeto. Situada na paisagem sagrada de Paravur — onde os canais serpenteiam entre os Kaavus (bosques sagrados) — esta residência nasce do espírito profundo do território. Ancorado no conceito “Das Árvores, dos Deuses e do Barro”, o projeto expressa reverência à natureza, à espiritualidade e à integridade dos materiais. Com 167 metros quadrados, esta casa particular localizada em Paravur, Kochi, Kerala, foi concluída em março de 2025.

Das Árvores: Quatro árvores guardiãs estruturam o desenho da casa, com os ambientes organizados suavemente ao seu redor, seguindo um plano linear. A primeira, uma Kuruttu Pala — pequena árvore medicinal nativa da Índia — inspirou a localização da entrada. Uma mangueira marca o centro da varanda frontal, onde se articulam um espelho d’água e assentos integrados. No “Pátio da Canela”, uma antiga árvore de canela se entrelaça com o espaço da escada, e seus galhos avançam delicadamente até uma sacada no quarto principal do andar superior. A quarta árvore, outra mangueira, define uma varanda íntima entre a cozinha e a área de serviço — ambiente pensado para preservar práticas regionais como cortar jaca ou mandioca. O contato constante com essas árvores e as texturas naturais dos materiais ancora a família em seu entorno e celebra o luxo de viver com calma e presença.


Dos Deuses: Conduzida pelas crenças espirituais dos moradores, a casa se conecta ao caráter sagrado da paisagem — marcada pelos Kaavus vizinhos e pela presença simbólica de um cágado no lago natural do terreno. O projeto incorpora elementos inspirados na arquitetura de templos antigos. Vigas de pedra atravessam os corredores, evocando os tetos esculpidos das estruturas religiosas tradicionais. Dois arcos de tijolos se erguem como pequenos Gopurams, suas formas curvadas lembrando cumes distantes, em consonância com a antiga crença indiana de que montanhas são moradas sagradas. De fato, todas as formas naturais eram veneradas como manifestações divinas na Índia ancestral. Um corredor central — o Idanaazhi — percorre a casa simbolizando o caminho da vida. Motivos de tartaruga surgem em detalhes como as grades das janelas, remetendo à mitologia hindu, em que a tartaruga sustenta o mundo sobre o casco.


Do Barro: A narrativa da arquitetura se torna especialmente tangível na parede ao lado do Thinna (plataforma elevada típica das casas vernaculares de Kerala), onde um mural artesanal em barro expressa a paisagem de North Paravur. Inspirado em vistas aéreas dos Kayals — os canais da região —, o mural traduz de forma abstrata as antigas rotas aquáticas por onde as Vanchi transportavam pessoas e mercadorias. Feito com uma combinação de barros nativos, o painel narra a história local ao mesmo tempo em que valoriza materiais e técnicas tradicionais. O uso do barro se espalha por toda a residência, revelando sua versatilidade, beleza natural e vínculo com o lugar.


Projetada para uma família com pais que trabalham fora e uma filha em fase de crescimento, a residência cultiva o luxo de uma vida desacelerada, que favorece o bem-estar físico e mental. Com atenção à saúde e à sustentabilidade, evitou-se ao máximo o uso de produtos químicos na obra. Em vez de tintas convencionais, aplicaram-se rebocos naturais de barro e óxido, resultando em paredes que respiram e em um ambiente interno mais saudável e livre de toxinas.

Os espaços da casa carregam histórias — e serão fonte de memórias duradouras para a família. Uma qualidade espacial única é criada pela variação nas alturas dos tetos: de 2,40 metros nos corredores até 4,50 metros sob os arcos de tijolos. Plataformas elevadas como o Thinna, inspiradas nas casas ancestrais de Kerala, definem os ambientes sem a necessidade de paredes, acolhendo com fluidez as atividades do cotidiano. No centro da proposta, está o desejo de construir uma casa repleta de memórias para a criança — um lugar onde sua imaginação possa florescer e onde a natureza esteja presente em cada gesto da infância.

A materialidade tem papel discreto, mas essencial. As paredes externas foram revestidas com reboco de barro estabilizado, conferindo à casa uma estética terrosa e consciência ambiental. Lajes preenchidas com tijolos de barro e pedras naturais reduziram significativamente o uso de concreto. Móveis e assentos integrados foram esculpidos em grandes blocos de pedra reaproveitados de antigas casas demolidas em Kerala, além de madeira reutilizada — um gesto de forte compromisso com a circularidade, o reaproveitamento de recursos e a valorização do tempo. Esta casa foi concebida como uma narrativa viva de fé, ecologia e pertencimento — onde cada parede guarda uma memória, cada árvore oferece proteção e cada brisa carrega as histórias silenciosas de uma terra sagrada.

“Minha intervenção atual, a convite dos moradores, tem a função de atualizar e adequar a grande casa à vida da família”, diz o arquiteto Carlos Boeschenstein, que criou o espaço artístico e a sala de ginástica, além de retrabalhar toda a iluminação para valorizar as madeiras da estrutura típica de Zanine e, ao mesmo tempo, destacar as peças da “artista residente” – neste caso, literalmente. Raquel estudou sua arte na Heatherleys School of Fine Arts, no Morley College e na University of the Arts of London, e já expôs suas obras, desde 2019, na Casa Brasil, no Centro Cultural dos Correios e no Consulado da Argentina, além de galerias diversas, sempre no Rio de Janeiro.

A arquitetura costuma ser representada como um objeto estável: um edifício capturado em um momento de clareza visual, isolado das contingências ao redor. Plantas, cortes e fotografias prometem legibilidade ao suspender o tempo. No entanto, muitos dos espaços públicos mais duradouros do mundo resistem completamente a esse modo de representação. Eles não foram feitos para serem compreendidos de imediato, nem revelam sua lógica apenas pela forma. Sua inteligência espacial emerge aos poucos — pela repetição, pela ocupação e pela duração.
O bazar se insere com firmeza nessa categoria. Ele não pode ser entendido por um único desenho ou por uma elevação finalizada. Sua organização não é fixa, é ensaiada diariamente. O que o sustenta não é apenas a composição arquitetônica, mas o tempo compartilhado, a memória coletiva e padrões de uso construídos ao longo dos anos. A convivência no bazar não nasce de decisões formais de projeto; ela é produzida por encontros repetidos, proximidades negociadas e familiaridade social acumulada no tempo.
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Observar um bazar com atenção é reconhecer a arquitetura operando como um sistema temporal. Mercados não funcionam de maneira contínua e uniforme. Eles se montam, se intensificam, pausam, se transformam e se dissolvem — muitas vezes dentro de um único dia. Da atividade noturna do Mercado de Flores Dadar, em Mumbai, à precisão matinal do Mercado de Tsukiji, em Tóquio, esses ambientes são regidos menos por fechamentos espaciais e mais por coordenação no tempo.
Mercados públicos: arquitetura do encontro e da troca
A regulação acontece por repetição, não por imposição. A orientação se dá pela familiaridade, não pela sinalização. A memória assume o papel que, em geral, caberia às paredes e aos limites físicos. Ao longo do dia, ferramentas arquitetônicas convencionais começam a perder relevância. Plantas não conseguem registrar o movimento; diagramas de zoneamento falham em captar a sobreposição. Em seu lugar, é preciso outro tipo de leitura espacial — uma que reconheça o tempo como estrutura organizadora e o comportamento como um material arquitetônico central.

Entre a meia-noite e o início da manhã, muitos mercados se formam fora do olhar da cidade. No Mercado de Flores KR, em Bengaluru, essa lógica temporal está ligada ao papel da cidade como polo agrícola e comercial regional. As flores chegam durante a noite, vindas de distritos vizinhos e outros estados, sincronizadas com a demanda do atacado nas primeiras horas do dia e com a necessidade de evitar o calor e o trânsito diurnos. O mercado ocupa um tecido urbano denso, sobreposto por rotas de transporte, instituições religiosas e ruas comerciais históricas. Sua montagem segue o hábito, não a alocação formal.

Superfícies temporárias são estendidas. Feixes de flores definem bordas e caminhos. Poucos estandes existem no sentido arquitetônico tradicional, mas os limites espaciais são claramente compreendidos. Os vendedores retornam aos mesmos pontos todos os dias, guiados pelo reconhecimento social, não por marcações físicas. O território se mantém pela continuidade, não pela posse. A ordem espacial é construída coletivamente, sem infraestrutura visível ou controle centralizado. Aqui, o bazar revela uma inteligência arquitetônica raramente reconhecida: ambientes feitos pela repetição, e não pela permanência; legibilidade sustentada pela memória, e não pelo fechamento material.
Nas primeiras horas da manhã, a atividade se intensifica. Troca no atacado, compras no varejo, logística e demandas rituais se sobrepõem num intervalo de tempo extremamente comprimido. A proximidade do mercado com ruas comerciais e áreas de culto o insere num tecido urbano historicamente denso. Do ponto de vista do planejamento, essa concentração costuma ser lida como desordem. No nível do chão, porém, o espaço opera com precisão.

Os fluxos se ajustam em torno de carrinhos, motos e carregadores. Certos caminhos se alargam ou se estreitam conforme o volume, não conforme a dimensão física. Limiares mudam de função sem alteração arquitetônica. O que parece caótico de cima funciona como um sistema calibrado por hábito, familiaridade e ajuste mútuo. Aqui, a densidade não indica falha do planejamento — indica sucesso da organização temporal. A arquitetura atua menos como separação e mais como estrutura para negociação constante.
Com o avanço do dia, a intensidade diminui. A ênfase passa da transação ao descanso, à manutenção e à troca social. Em mercados como o de Mapusa, em Goa, essa desaceleração é estrutural. O ritmo do mercado se vincula mais aos ciclos agrícolas semanais e sazonais do que à demanda diária. O pico ocorre pela manhã; depois, o tempo se alonga.

Nessas horas, o mercado se expande e se contrai no tempo, não no espaço. A forma construída oferece sombra, bordas e superfícies duráveis, mas recua em protagonismo. A organização se dá por expectativa mútua. Conversas se estendem. Assentos improvisados surgem onde nada foi projetado. O mercado continua ocupando o espaço sem produzir troca material. Essa pausa não é ineficiência — é inteligência espacial. Ela permite que o sistema se recupere e se sustente ao longo das semanas e estações.
À medida que o comércio se encerra, muitos mercados se transformam profundamente. No Campo de’ Fiori, em Roma, a retirada das barracas revela uma praça cívica. O mesmo chão que sustentava caixas e circulação pela manhã passa a acolher encontros e lazer à noite.

Essa mudança acontece sem qualquer intervenção arquitetônica ou reprogramação formal. O uso se transforma, mas a memória do espaço permanece. Mesmo sem as barracas e objetos, os vestígios do mercado continuam legíveis, e as pessoas ainda reconhecem onde a atividade acontecia, orientando-se pela familiaridade — não por placas ou dispositivos de design. O espaço não precisa anunciar sua nova função; ele simplesmente a incorpora. O êxito desses ambientes não está na “flexibilidade” como recurso projetado, mas na ausência de restrições. A arquitetura se mantém aberta o suficiente para acolher diferentes condições sociais ao longo do tempo, sem impor hierarquias nem fixar permanências. Ao evitar definir o uso com excesso de precisão, o mercado garante continuidade entre o comércio e a vida pública, mostrando como a arquitetura permanece relevante quando permite que os programas evoluam, em vez de exigir estabilidade.
À noite, o bazar quase desaparece. Estruturas temporárias somem. Os objetos vão embora. Em mercados como o Ballarò, em Palermo, quase nada resta fisicamente — mas a ordem espacial continua viva na memória coletiva. O mercado não depende de preservação formal. Ele sobrevive por ensaio diário.

Com o tempo, a questão muda: não é mais como projetar mercados, mas como os mercados moldam o comportamento espacial. O bazar ensina negociação, timing e convivência. Ele produz coletividade não pela forma, mas pelo uso contínuo. Não se trata de romantizar a informalidade, mas de ampliar o modo como a arquitetura observa o espaço vivido. Quando espaço e tempo são inseparáveis, a representação também precisa ser. O bazar não pede outra arquitetura. Ele pede outras formas de enxergar a arquitetura como ela é vivida.
Este artigo é parte dos Temas do ArchDaily: Construindo lugares de encontro. Mensalmente, exploramos um tema em profundidade através de artigos, entrevistas, notícias e projetos de arquitetura. Convidamos você a conhecer mais sobre os temas do ArchDaily. E, como sempre, o ArchDaily está aberto a contribuições de nossas leitoras e leitores; se você quiser enviar um artigo ou projeto, entre em contato.
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