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Mercados públicos: arquitetura do encontro e da troca

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2025

Descrição enviada pela equipe de projeto. O projeto está situado às margens do Rio Tiegang, em Huizhou, China. Há cerca de mil anos, o célebre literato da Dinastia Song do Norte, Su Shi, foi exilado para essa região e, possivelmente, percorreu essas mesmas margens. Da paisagem e dos costumes locais de Lingnan, ele extraiu inspiração para compor os “Dezesseis Prazeres da Vida em Huizhou”. Um milênio depois, essa obra serviu de referência para a criação de dezesseis pavilhões dispostos ao longo da estrada circular que conecta a Montanha Nankun à Montanha Luofu. Reunidos sob o título “Projeto de Arte Arquitetônica da Zona Pioneira Nankunshan-Luofushan”, esses pavilhões celebram a memória cultural e a relação entre natureza e arquitetura. Nosso projeto, o “Caminho Floral”, integra esse conjunto como o Pavilhão do Rio Tiegang.



O Caminho Floral surge como resposta ao desafio de reinterpretar os “Dezesseis Prazeres da Vida em Huizhou”, inspirando-se na metáfora de “cultivar humildade para florescer”. Em vez de oferecer uma experiência convencional de descanso, o pavilhão provoca os visitantes a explorar seus sentidos físicos por meio de uma sequência espacial marcada por transições e contrastes. Nos últimos anos de sua vida, Su Shi resumiu sua trajetória com o verso: “Quando me perguntam sobre as conquistas da minha vida, aponto para Huangzhou, Huizhou e Danzhou”. A partir dessa síntese, o projeto traduz suas experiências e reflexões nesses três lugares em uma narrativa arquitetônica: do estado inicial de confusão e impotência até alcançar a serenidade plena, refletindo as voltas e transformações que marcaram a vida de Su Shi.


O terreno está aninhado em um bosque de bambu, situado entre uma estrada e um rio. Tanto a estrada quanto o rio se estendem infinitamente, transmitindo uma sensação de continuidade e amplitude. Aqui, a moderna rede de transporte corre paralela ao fluxo eterno do rio, evocando sutilmente a passagem do tempo. Diante disso, o novo volume inserido entre estrada e rio assume o caráter do bosque de bambu, funcionando como uma interface espacial que separa essas duas vastas continuidades. A circulação dos visitantes foi alinhada com o fluxo de veículos e do rio, moldando o volume em um percurso alongado —um caminho que parte e retorna, estreitando-se e alargando-se. Dentro do bosque de bambu, essa trajetória é explorada ao máximo, expandindo o espaço de forma intencional. Por meio dessa organização espacial simbólica, a experiência se transforma em uma ponte que conecta passado e presente.


Agradável. Seguindo a topografia natural, a praça de entrada está situada em um ponto com mudanças de elevação pronunciadas. Pavimentada com cascalho e definida por bosques de bambu e bancos, ela fornece acesso a áreas funcionais como o bar e os banheiros. O espaço de entrada é amplo, tranquilo e relaxante—uma atmosfera que lembra os anos jovens de Su Shi ao iniciar sua carreira oficial, quando o caminho à frente parecia suave e desobstruído, com a brisa trazendo um futuro promissor. A partir dessa praça, os visitantes começam sua rota do ponto alto e descem por um corredor metálico estreito. Essa sequência espacial deliberada—contraste sequencial—define conscientemente o palco para os espaços mais escuros que seguem.


Impotente. O volume principal é construído com painéis de aço corten. Caixas estreitas medindo 2,1m de altura e 1,2m de largura estão dispostas em uma configuração paralela escalonada, conectadas para formar um corredor enquanto mantêm uma tolerância lateral para pequenas deformações. Para abordar efetivamente a drenagem do local, placas de aço de 1 cm de espessura foram utilizadas nas fundações como suportes para elevar as caixas, criando um espaço deliberado entre a estrutura e o solo natural. Como resultado, o volume arquitetônico linear não divide o local em dois—água da chuva pode passar sob o volume, seguindo a topografia natural até o rio, enquanto a vegetação permanece conectada em todo o local.


À medida que se avança pelo corredor metálico, as caixas balançam e oscilam como se fossem movidas por uma força invisível, mas cada unidade adjacente se move com uma intensidade variável. Essa experiência é como a de Su Dongpo que, após ser repentinamente destituído e exilado, ficou preso e totalmente sem autonomia. O corredor é escuro, e aqueles que passam por ele não conseguem escapar da influência do clima exterior. A luz do sol, o vento e as gotas de chuva passam através das estreitas fendas entre as caixas. Quer se pause dentro ou se corra pelo corredor, a luz do sol ou a chuva permanecem sempre nítidas e perceptíveis. A paisagem externa se comprime através de fendas estreitas, fazendo com que o olhar recue, enquanto os ecos ressoam dentro da caixa, ampliando os sentidos e tornando o toque e o som intensamente palpáveis.


Serendipidade. Em meio às névoas persistentes de Huizhou, Su Shi encontrou consolo no abraço da natureza. Assim como os viajantes passam pelos sons do tráfego e dos rios, o final do corredor alongado revela uma luz vibrante. No pavilhão circular, a instalação floral do artista Chen Zhuo—inspirada em rochas paisagísticas—está disposta ao longo do espaço curvo, suas cores vibrantes são difundidas por um acabamento em aço inoxidável, criando um brilho deslumbrante e psicodélico. No centro do teto da sala das flores, uma abertura circular direciona o olhar para cima, convergindo no céu redondo emoldurado pelo bosque de bambu. É aqui que a experiência alcança seu ponto de virada. Os visitantes se acomodam entre os arranjos florais, onde a alegria se liberta dos limites e do peso das caixas. A leveza substitui a escuridão, o envolvimento dissipa a opressão e a serenidade silencia o ruído—mais uma vez, a visão se torna o guia para perceber o mundo. Dentro do pavilhão circular, todas as sensações se transformam; os visitantes podem permanecer ali, em contemplação tranquila, absorvendo o espaço e seu silêncio.


Expansivo. Após ser exilado mais uma vez próximo aos sessenta anos, Su Shi chegou em Danzhou—cada vez mais longe dos antigos centros de prosperidade. Em meio a adversidades, ele transformou sua angústia em uma sensação de libertação. À medida que a vida de Su Shi pivota, assim também o faz o caminho do visitante—virando-se para outra saída do pavilhão circular. O espaço transita de estreito para arejado, onde a ferrugem profunda e a cor nos painéis de aço corten abruptamente terminam. Quando os visitantes chegam à beira do rio, uma fileira de balanços voltados para a água se movem suavemente. À medida que os assentos de malha metálica prateada balançam para frente e para trás, quanto mais próximos da água, mais surge a coragem de enfrentar a escuridão. Ao olhar para trás, para as caixas do corredor metálico alinhadas com os balanços, a sensação anterior de instabilidade se cristaliza—as estruturas parecem, de fato, mover-se em sintonia com o vaivém dos assentos. Compreendendo o conjunto naquele instante, surge uma clareza libertadora, evocando o desapego transcendente de Su Shi. Além do corredor, visitantes e moradores locais se misturam à margem, molhando-se, sonhando acordados ou pescando. A paisagem se abre, e o vento, a água e as pessoas respiram em plena liberdade.


A vida de Su Shi era como uma folha de aço: maleável o suficiente para absorver incontáveis golpes, resistente o suficiente para retornar após intermináveis ataques. O tempo mancha com uma patina, como expresso em seu verso: “Os homens têm tristeza e alegria; se separam ou se encontram novamente. A lua brilha ou se apaga e pode crescer ou minguar.” No entanto, através de tudo isso, apenas a brisa à beira do rio permanece inalterada através das eras. Assim, a energia de Su Shi de mil anos atrás ressoa ao longo desta margem do rio—onde o Su Shi que chegou a Huizhou há séculos e os visitantes de hoje se conectam através do tempo dentro do mesmo espaço. Os visitantes se movem para dentro e para fora pelo corredor, balançando à beira da água para admirar o rio ondulante e coletando fragmentos de tempo dentro do fluxo das eras. Quando as flores desabrocham? A resposta persiste: elas sempre estiveram florescendo.


A arquitetura costuma ser representada como um objeto estável: um edifício capturado em um momento de clareza visual, isolado das contingências ao redor. Plantas, cortes e fotografias prometem legibilidade ao suspender o tempo. No entanto, muitos dos espaços públicos mais duradouros do mundo resistem completamente a esse modo de representação. Eles não foram feitos para serem compreendidos de imediato, nem revelam sua lógica apenas pela forma. Sua inteligência espacial emerge aos poucos — pela repetição, pela ocupação e pela duração.
O bazar se insere com firmeza nessa categoria. Ele não pode ser entendido por um único desenho ou por uma elevação finalizada. Sua organização não é fixa, é ensaiada diariamente. O que o sustenta não é apenas a composição arquitetônica, mas o tempo compartilhado, a memória coletiva e padrões de uso construídos ao longo dos anos. A convivência no bazar não nasce de decisões formais de projeto; ela é produzida por encontros repetidos, proximidades negociadas e familiaridade social acumulada no tempo.
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Observar um bazar com atenção é reconhecer a arquitetura operando como um sistema temporal. Mercados não funcionam de maneira contínua e uniforme. Eles se montam, se intensificam, pausam, se transformam e se dissolvem — muitas vezes dentro de um único dia. Da atividade noturna do Mercado de Flores Dadar, em Mumbai, à precisão matinal do Mercado de Tsukiji, em Tóquio, esses ambientes são regidos menos por fechamentos espaciais e mais por coordenação no tempo.
Mercados públicos: arquitetura do encontro e da troca
A regulação acontece por repetição, não por imposição. A orientação se dá pela familiaridade, não pela sinalização. A memória assume o papel que, em geral, caberia às paredes e aos limites físicos. Ao longo do dia, ferramentas arquitetônicas convencionais começam a perder relevância. Plantas não conseguem registrar o movimento; diagramas de zoneamento falham em captar a sobreposição. Em seu lugar, é preciso outro tipo de leitura espacial — uma que reconheça o tempo como estrutura organizadora e o comportamento como um material arquitetônico central.

Entre a meia-noite e o início da manhã, muitos mercados se formam fora do olhar da cidade. No Mercado de Flores KR, em Bengaluru, essa lógica temporal está ligada ao papel da cidade como polo agrícola e comercial regional. As flores chegam durante a noite, vindas de distritos vizinhos e outros estados, sincronizadas com a demanda do atacado nas primeiras horas do dia e com a necessidade de evitar o calor e o trânsito diurnos. O mercado ocupa um tecido urbano denso, sobreposto por rotas de transporte, instituições religiosas e ruas comerciais históricas. Sua montagem segue o hábito, não a alocação formal.

Superfícies temporárias são estendidas. Feixes de flores definem bordas e caminhos. Poucos estandes existem no sentido arquitetônico tradicional, mas os limites espaciais são claramente compreendidos. Os vendedores retornam aos mesmos pontos todos os dias, guiados pelo reconhecimento social, não por marcações físicas. O território se mantém pela continuidade, não pela posse. A ordem espacial é construída coletivamente, sem infraestrutura visível ou controle centralizado. Aqui, o bazar revela uma inteligência arquitetônica raramente reconhecida: ambientes feitos pela repetição, e não pela permanência; legibilidade sustentada pela memória, e não pelo fechamento material.
Nas primeiras horas da manhã, a atividade se intensifica. Troca no atacado, compras no varejo, logística e demandas rituais se sobrepõem num intervalo de tempo extremamente comprimido. A proximidade do mercado com ruas comerciais e áreas de culto o insere num tecido urbano historicamente denso. Do ponto de vista do planejamento, essa concentração costuma ser lida como desordem. No nível do chão, porém, o espaço opera com precisão.

Os fluxos se ajustam em torno de carrinhos, motos e carregadores. Certos caminhos se alargam ou se estreitam conforme o volume, não conforme a dimensão física. Limiares mudam de função sem alteração arquitetônica. O que parece caótico de cima funciona como um sistema calibrado por hábito, familiaridade e ajuste mútuo. Aqui, a densidade não indica falha do planejamento — indica sucesso da organização temporal. A arquitetura atua menos como separação e mais como estrutura para negociação constante.
Com o avanço do dia, a intensidade diminui. A ênfase passa da transação ao descanso, à manutenção e à troca social. Em mercados como o de Mapusa, em Goa, essa desaceleração é estrutural. O ritmo do mercado se vincula mais aos ciclos agrícolas semanais e sazonais do que à demanda diária. O pico ocorre pela manhã; depois, o tempo se alonga.

Nessas horas, o mercado se expande e se contrai no tempo, não no espaço. A forma construída oferece sombra, bordas e superfícies duráveis, mas recua em protagonismo. A organização se dá por expectativa mútua. Conversas se estendem. Assentos improvisados surgem onde nada foi projetado. O mercado continua ocupando o espaço sem produzir troca material. Essa pausa não é ineficiência — é inteligência espacial. Ela permite que o sistema se recupere e se sustente ao longo das semanas e estações.
À medida que o comércio se encerra, muitos mercados se transformam profundamente. No Campo de’ Fiori, em Roma, a retirada das barracas revela uma praça cívica. O mesmo chão que sustentava caixas e circulação pela manhã passa a acolher encontros e lazer à noite.

Essa mudança acontece sem qualquer intervenção arquitetônica ou reprogramação formal. O uso se transforma, mas a memória do espaço permanece. Mesmo sem as barracas e objetos, os vestígios do mercado continuam legíveis, e as pessoas ainda reconhecem onde a atividade acontecia, orientando-se pela familiaridade — não por placas ou dispositivos de design. O espaço não precisa anunciar sua nova função; ele simplesmente a incorpora. O êxito desses ambientes não está na “flexibilidade” como recurso projetado, mas na ausência de restrições. A arquitetura se mantém aberta o suficiente para acolher diferentes condições sociais ao longo do tempo, sem impor hierarquias nem fixar permanências. Ao evitar definir o uso com excesso de precisão, o mercado garante continuidade entre o comércio e a vida pública, mostrando como a arquitetura permanece relevante quando permite que os programas evoluam, em vez de exigir estabilidade.
À noite, o bazar quase desaparece. Estruturas temporárias somem. Os objetos vão embora. Em mercados como o Ballarò, em Palermo, quase nada resta fisicamente — mas a ordem espacial continua viva na memória coletiva. O mercado não depende de preservação formal. Ele sobrevive por ensaio diário.

Com o tempo, a questão muda: não é mais como projetar mercados, mas como os mercados moldam o comportamento espacial. O bazar ensina negociação, timing e convivência. Ele produz coletividade não pela forma, mas pelo uso contínuo. Não se trata de romantizar a informalidade, mas de ampliar o modo como a arquitetura observa o espaço vivido. Quando espaço e tempo são inseparáveis, a representação também precisa ser. O bazar não pede outra arquitetura. Ele pede outras formas de enxergar a arquitetura como ela é vivida.
Este artigo é parte dos Temas do ArchDaily: Construindo lugares de encontro. Mensalmente, exploramos um tema em profundidade através de artigos, entrevistas, notícias e projetos de arquitetura. Convidamos você a conhecer mais sobre os temas do ArchDaily. E, como sempre, o ArchDaily está aberto a contribuições de nossas leitoras e leitores; se você quiser enviar um artigo ou projeto, entre em contato.
Timothée Chalamet cresceu no Manhattan Plaza, um edifício de 46 andares localizado no bairro de Hell’s Kitchen, em Manhattan. Concluído em 1977, o complexo oferece moradias subsidiadas para famílias de renda média, dentro do programa habitacional Mitchell-Lama da cidade de Nova York. O prédio abriga muitos artistas, o que lhe rendeu o apelido de “o quarto da Broadway” (Broadway’s Bedroom). Entre outros moradores famosos estão Colman Domingo, Alicia Keys, Angela Lansbury, Mickey Rourke e Larry David (que inspirou o personagem Cosmo Kramer na série Seinfeld). Em certa época, Samuel L. Jackson chegou a trabalhar ali como segurança.

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Descrição enviada pela equipe de projeto. Este edifício é a nova sede do nosso escritório de arquitetura e da nossa oficina de carpintaria. Por que nós, um escritório de arquitetura, decidimos criar uma oficina de marcenaria? Em Okinawa, tornou-se comum que muitos edifícios comerciais utilizem estruturas de concreto armado combinadas com caixilhos de alumínio. No entanto, em grande parte de nossos projetos, optamos por projetar e instalar caixilhos de madeira nas aberturas — elementos com os quais as pessoas entram em contato direto no cotidiano e que influenciam significativamente a qualidade do espaço.

Casa EJ / Leo Romano
Casa Crua / Order Matter
Casa AL / Taguá Arquitetura
Terreiro do Trigo / Posto 9
Casa São Pedro / FGMF
Casa ON / Guillem Carrera
Casa Tupin / BLOCO Arquitetos
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