Grandes Obras

Bartolomeu Costa Cabral (1929-2024) | Espaço de Arquitetura

Bartolomeu Costa Cabral (1929-2024) | Espaço de Arquitetura


A Ordem dos Arquitectos lamenta informar que faleceu, em Lisboa, o arquiteto Bartolomeu (de Albuquerque da) Costa Cabral aos 95 anos.

Nascido em Lisboa, a 8 de fevereiro de 1929, frequenta o Liceu Pedro Nunes ingressando no Curso Especial de Arquitectura da então Escola de Belas-Artes de Lisboa (EBAL), após preparação para exame de admissão a Desenho no atelier de Frederico George (1915-1994).

O seu percurso profissional tem início desde muito cedo, quando ainda estudante. Iniciou colaboração no Gabinete de Urbanização do Plano Diretor de Lisboa, entre 1956 e 1959, e colaborou com Nuno Teotónio Pereira (1922-2016). Diz Nuno Teotónio Pereira ter sido o jovem Bartolomeu Costa Cabral a trazer o seu colega no liceu, agora engenheiro Ernesto Borges, e o engenheiro civil José Lucena, numa inovadora interdisciplinaridade – ainda o gabinete de projetos que Teotónio partilhava com Raúl Chorão Ramalho (1914-2002), Manuel Alzina de Menezes (1920-2016), Manuel Tainha (1922-2012) e António Freitas Leal (1927-2018) se localizava num 5º andar da Rua Rodrigo da Fonseca. Em 1957 a mudança para a Rua da Alegria “de cima” antecede a saída de Nuno Teotónio Pereira e Bartolomeu Costa Cabral para a Rua da Alegria “de baixo”, num 3.º andar alto, onde se juntará Nuno Portas, Pedro Vieira de Almeida e, mais tarde, Pedro Botelho e Rosário Beija.

Em 1957, Bartolomeu Costa Cabral apresenta ao Concurso de Obtenção do Diploma de Arquiteto (CODA) o projeto de “Uma Pousada”, equipamento hoteleiro, para a Praia do Vau, em Portimão (não construído). Já então escrevia: «O objectivo principal a atingir, foi o de criar um ambiente que satisfizesse as exigências das múltiplas situações» do programa, demonstrando a sua sensibilidade para a funcionalidade e conforto dos espaços, onde «o clima do Algarve essencialmente quente e de grande luminosidade» definiram a orientação e características do edifício a construir com «processos e materiais tradicionais» para «criar uma arquitectura actual, mas integrada numa bem compreendida linha da tradição».

Logo nesse ano, colabora com Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas sob orientação de Frederico George na exposição “Cooperativismo Habitacional no Mundo” promovida pela Associação dos Inquilinos de Lisboa na Sociedade Nacional de Belas-Artes. Encontrar-se-á neste momento, no módulo de habitação construído à escala natural, equipado e mobilado, e no inquérito distribuído aos visitantes, o despertar do interesse de Bartolomeu Costa Cabral pela perceção das pessoas no habitar que se pretendia moderno e confortável, mesmo que a custos reduzidos – tema da maior atualidade em 2024.

Entre1959 e 1968, Bartolomeu Costa Cabral desenvolve diversos estudos sobre habitação social para o Gabinete Técnico de Habitação (GTH), Federação das Caixas de Previdência, Câmara Municipal de Lisboa e Fundo Fomento Habitação (FFH – atual IHRU), tendo ainda entre 1962 e 1967 estagiado em Paris (Centre Scientifique et Technique du Batîment), depois em Londres (Greater London Council) e em Lisboa (Laboratório Nacional de Engenharia Civil).

A construção em Lisboa dos conjuntos de 600 fogos em Olivais Sul (em coautoria com o Nuno Portas, 1961), e de 300 fogos no Bairro de Olivais Sul (em coautoria com o Nuno Teotónio Pereira, 1963) refletem o estudo aprofundado sobre o tema da habitação social que desenvolveu neste período, propondo um novo desenho urbano, com espaços públicos e implantações de edifícios diversos, e com novas e dinâmicas tipologias. O seu Relatório “Formas de agrupamento em habitação” de 1968, apresenta uma investigação detalhada sobre as tipologias habitacionais e a escala urbana, com objetivo de satisfazer as necessidades dos moradores.

A sua atividade profissional caracteriza-se por trabalhar em coautoria, particularmente nos anos 60. Em 1964, com Rui Goes Ferreira, desenvolve projetos para a Federação de Caixas de Previdência na Madeira, e depois diversos outros com Maurício de Vasconcellos e Conceição Silva. Com estes últimos estabelece colaboração continuada no Grupo de Planeamento e Arquitectura (GPA) até ao seu encerramento em 1997, tendo nesse contexto sido responsável por numerosos trabalhos de diversas escalas, desde planos de urbanização para a Falagueira e Almada, a diversos edifícios universitários para Bragança, Guimarães, Covilhã, Santarém, Tomar e Oeiras. Destaca-se ainda a co-autoria com Maurício de Vasconcellos no edifício-sede da Sociedade Portuguesa de Autores (1971-1975) em Lisboa.

Da sua obra construída será, porventura, o Bloco das Águas Livres, em Lisboa (1953-1955) o edifício mais emblemático da sua carreira. Projetado em coautoria com Nuno Teotónio Pereira, é um edifício de habitação coletiva com escritórios e comércio, de uma organização espácio-funcional inovadora, moderna e clara, inclusive na integração obras de diversos artistas plásticos. É uma referência incontornável da arquitetura portuguesa do século XX (2º Prémio Nacional de Arquitectura da Fundação Calouste Gulbenkian em 1962, e classificado como Monumento de Interesse Público em 2012). Esta preocupação funcional é contínua na sua prática profissional, e setenta anos volvidos, referindo-se em 2021 à sua primeira obra como profissional liberal – o Grupo Escolar e Balneário do Castelo (com projeto de 1959 e construção apenas em 1970) no centro histórico de Lisboa – reafirma: “A arquitectura é sobretudo funcional. A estética vem depois”.

Funda o seu próprio atelier em 1973, onde projeta diversos edifícios, nomeadamente o edifício na Praça de Martim Moniz (1973-1984) pela criação de espaço público, e a Estação do Metropolitano da Quinta das Conchas (1998-2002) pela sua complexidade funcional e de segurança (427 peças desenhadas) e cuidada integração das intervenções plásticas de Joana Rosa e Manuel Baptista. Recentemente o interesse de Bartolomeu Costa Cabral pela arquitetura em terra (Moradia Herdade Delgado, Beja / Casa em Taipa, de 2003 – 2008) propõe uma notável interpretação das técnicas tradicionais de construção na sua adaptação ao conforto exigido no habitar contemporâneo, que sempre caracterizou os seus espaços habitacionais, já presente no início da sua carreia nos referidos Blocos dos Olivais.

Embora tenha sido premiado em 1978 com o Prémio de Arquitectura Raúl Lino (no âmbito do GPA com a notável Agência da CGD de Sintra) e em 1997 com o Prémio Eugénio dos Santos (com Nuno Teotónio Pereira pela remodelação do Teatro Taborda, em Lisboa), o reconhecimento da notável obra e contributo de Bartolomeu Costa Cabral para a arquitetura portuguesa chega já neste século XXI. Não só com a Menção Honrosa do Prémio Valmor 2009 (pela habitação individual na Travessa da Oliveira, em Lisboa), mas principalmente com a atribuição do Prémio AICA 2019 – em que o júri valorizou a sua “atitude ética” destacando BCC como “autor de uma arquitectura simples, despojada, preocupada com a integração na paisagem, o uso de materiais naturais e a comunidade”.

As exposições A Ética das Coisas – Bartolomeu Costa Cabral 1953-2012, iniciativa da Secção Regional Sul da Ordem dos Arquitetos (2019) a que se seguiu Bartolomeu Costa Cabral / um arquivo em construção (Fundação Marques da Silva, 2021), assim como as publicações Bartolomeu Costa Cabral 18 Obras (2016) e Bloco das Águas Livres : A perfect building (2019), terão contribuído para a condecoração pelo Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (2022).

A doação em 15 de abril de 2019 à Fundação José Marques da Silva contém a produção de Bartolomeu Costa Cabral no período entre 1952 e 2018. Listam-se cerca de 40 m/l de documentação escrita, a que acrescem 7.521 peças desenhadas, cerca de 500 fotografias e 12 maquetes. Encontram-se mais de duas centenas de projetos em desenhos de peças de mobiliário, projetos de planeamento urbano, e de uma significativa quantidade de edifícios que respondem a variados programas e lugares, refletindo uma contemporaneidade que se atualiza em cada momento, um percurso único, sensível e atento na cultura arquitetónica portuguesa

Um dos primeiros e mais destacados membros da Ordem dos Arquitectos (com o número 142), Bartolomeu Costa Cabral foi homenageado em 2011 por ocasião do Dia Nacional do Arquiteto, e consagrado no Congresso dos Arquitetos em 2019 no Algarve pela sua dedicação à Arquitetura e ao trabalho associativo em prol da classe profissional, tendo sido distinto membro da Direção do Sindicato Nacional dos Arquitetos (1960-1965), membro do Conselho Disciplinar do Sindicato Nacional dos Arquitectos (de 1969 a 1971), assumindo a Direção da Secção Portuguesa da União Internacional dos Arquitectos (SPUIA, de 1977 a 1987).

Embora a sua experiência docente tenha sido de apenas dois anos – a convite de Nuno Portas em 1968, leciona na ESBAL “Composição de Arquitectura 2” aos estudantes de 4º ano -, aos 87 anos, reconhecia a diversidade de práticas em arquitetura e a sua energia inesgotável: “Acho que tive bastante sorte com o meu percurso profissional… fiz bastantes coisas, trabalhei toda a vida e ainda estou a trabalhar.” (in Branca – Revista de Arquitetura da Universidade da Beira Interior).

Bartolomeu Costa Cabral deixa-nos hoje fisicamente, mas a sua obra e o seu legado permanecem na arquitetura portuguesa para estudo e benefício de sucessivas gerações de arquitetos.

A Ordem dos Arquitectos está de luto e é com enorme pesar que enviamos as nossas condolências à família.

Lisboa, 21 de abril de 2024,

A Direção da Ordem dos Arquitectos



Fonte: Espaço da Arquitetura

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