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Reuso adaptativo como estratégia para o desenvolvimento urbano sustentável

Diante das forças combinadas do crescimento populacional, da prosperidade econômica e da expansão urbana, as cidades vêm registrando um aumento expressivo na circulação de pessoas e mercadorias — reflexo direto da evolução dos sistemas de mobilidade nos ambientes urbanos. Com o avanço das tecnologias e a transformação dos meios de transporte, o reaproveitamento adaptativo de vagões de trem, cabines de avião e outras infraestruturas de serviço revela novas oportunidades para explorar seu potencial criativo. Materiais, tecnologias e ferramentas de projeto convergem em torno de um mesmo propósito: restaurar e ressignificar estruturas desativadas, para dar-lhes nova vida.
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As cidades são os principais polos de atividade econômica e desenvolvimento social em escalas regionais, nacionais e globais. Trens, metrôs, ônibus, aviões, navios e outros meios de transporte moldam o ritmo cotidiano da vida urbana. Segundo o Relatório dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável de 2023, apenas 51,6% da população urbana mundial tem acesso conveniente ao transporte público — um dado que evidencia grandes desigualdades na qualidade e na disponibilidade da infraestrutura entre regiões, países e até mesmo dentro de uma mesma cidade. Independentemente de seus sistemas, mecanismos ou modos de circulação, todas as formas de transporte fazem parte de uma rede complexa que envolve diversos agentes e disciplinas. Em sintonia com a ideia de “construir menos”, arquitetos e urbanistas têm voltado seu foco para reimaginar e transformar estruturas existentes — muitas vezes negligenciadas ou obsoletas — em espaços com novos propósitos e potencial de adaptação.

Enquanto a indústria de transporte busca constantemente reduzir o peso de seus equipamentos, máquinas e infraestruturas para aumentar a eficiência, ela também reforça a necessidade de empregar materiais que garantam qualidade, resistência e durabilidade — facilitando a manutenção e atendendo aos padrões de segurança. Preservar certas estruturas e equipamentos confere à memória coletiva novos significados, entrelaçando passado e presente por meio de materiais e demandas contemporâneas. Assim como o Espaço Público da Agência de Planejamento de Istambul, do escritório SO? Architecture and Ideas, manteve elementos originais do telhado e a cor dos azulejos da antiga piscina, por que não poderiam as infraestruturas de transporte ser recondicionadas, reorganizando seus espaços sem perder os materiais e o caráter original? O que significa, afinal, ressignificar uma estrutura de transporte para novos usos?
Reuso adaptativo como estratégia para o desenvolvimento urbano sustentável

Buscando incentivar a interação cívica e a integração social, o paradigma urbano contemporâneo valoriza o uso misto por seus benefícios sociais, econômicos e infraestruturais. No contexto da readequação de estruturas como vagões de trem, cabines de avião ou de navio, a convivência de múltiplos usos exige uma análise cuidadosa — desde os diferentes níveis de acessibilidade até as funções que o espaço deve abrigar. A sobreposição de atividades demanda compreender as necessidades dos futuros usuários sem deixar de reconhecer a história e a função original de cada estrutura.


Projetadas como marcos urbanos — e frequentemente centrais em transformações de escala distrital, como no projeto Multimodal Hub and Offices, em Nantes —, as infraestruturas de mobilidade que integram espaços de trabalho, lazer e comércio impulsionam o crescimento urbano e a constante evolução das cidades. Ao mesmo tempo, a ressignificação de edifícios — como igrejas convertidas em moradias ou fábricas transformadas em centros culturais — estimula o debate sobre a preservação do patrimônio, o papel histórico dessas infraestruturas e o valor do reaproveitamento adaptativo no desenvolvimento urbano contemporâneo. Um exemplo é o projeto Coach Airways Store and Café, na Malásia, que transformou um avião abandonado em um espaço composto por quatro cabines de experiências. Ao integrar áreas comerciais e um café, o projeto busca equilibrar o antigo e o novo, a memória e a inovação.

Se a invenção da roda marcou um dos maiores avanços tecnológicos da história, uma sequência de aprimoramentos e inovações subsequentes aumentou, ao longo do tempo, a eficiência, a capacidade de carga e a velocidade dos transportes. Desde a Revolução Industrial, o aço tornou-se um dos principais motores de transformação do setor, expandindo-se por terra, mar e ar. Dos primeiros trens a vapor às aeronaves mais avançadas, a resistência, a durabilidade e a versatilidade do aço o consagraram como material essencial para a construção de veículos, infraestruturas e maquinários. Ele substituiu o ferro nas ferrovias, e sua resistência à corrosão e ao esforço mecânico permitiu seu uso também na construção naval.


Hoje, o alumínio e outros materiais leves tornaram-se componentes fundamentais nas indústrias aeroespacial e automotiva, entre outras. De motores a estruturas, esses materiais incorporam composições e processos de fabricação variados, que aprimoram resistência, ductilidade e leveza. Mas quais materiais definem os interiores desses espaços? Como diferentes acabamentos e texturas dialogam dentro de um projeto? Tomando o movimento e o corte como princípios norteadores, o design de interiores da padaria Horli Baking, assinado pelo True Thing Design Studio, propõe expositores modulares que se movem, giram e se transformam — criando uma sensação de fluidez e dinamismo. Formas orgânicas, bordas irregulares e tons claros evocam a passagem do tempo, permitindo que passado e presente coexistam em harmonia no contexto histórico da estrutura.

De extensas redes rodoviárias a rotas aéreas e marítimas, a indústria de transporte tem experimentado uma ampla variedade de técnicas construtivas, adaptando-se às condições ambientais e topográficas dos territórios que atravessa. Hoje, estações de trem, hubs multimodais, estacionamentos para carros e bicicletas, e pontos de ônibus são projetados com foco na integração entre padrões de design, conforto do usuário e sustentabilidade. Por que, por exemplo, o Edifício Garagem Wendlingen, na Alemanha, adota uma estrutura de madeira sustentável em vez das convencionais de aço ou concreto? A resposta está no impacto direto que cada tecnologia construtiva exerce sobre o tempo de execução, os custos de produção e o tipo de mão de obra e equipamentos necessários. Nesse caso, a cobertura em madeira laminada cruzada e as colunas em madeira laminada colada foram fabricadas de forma pré-fabricada e montadas no local — reduzindo o tempo de construção e aumentando a eficiência de custos.

Ao transportar bens e conectar pessoas, os meios modernos de transporte dependem de materiais como madeira, compósitos, fibras sintéticas e diferentes tipos de metais. Cada um requer métodos específicos de trabalho e aplicação — que envolvem processos como extrusão, forjamento e fundição, além de tratamentos térmicos e mecânicos ajustados às suas propriedades. O escritório JC Architecture, por exemplo, reinterpretou o conceito tradicional de viagem de trem ao criar o Moving Kitchen — a primeira cozinha ferroviária de Taiwan. Buscando conectar linguagem de design e identidade cultural, a Administração Ferroviária de Taiwan permitiu o reaproveitamento de vagões de 70 anos, concedendo nova vida ao material histórico por meio de um programa adaptativo. A transformação apresentou desafios significativos, como a necessidade de triplicar o fornecimento de energia para atender à cozinha e redesenhar desde o mobiliário fixo até os sistemas de iluminação.

Com muito ainda a avançar no desenvolvimento de sistemas de transporte seguros, acessíveis e sustentáveis, cidades em todo o mundo demandam cada vez mais a integração de planos de mobilidade urbana de longo prazo — sustentados por investimentos em infraestrutura e regulamentações claras. O caminho para o futuro do transporte exige repensar como as tecnologias emergentes e as inovações moldarão novas formas de mobilidade. Surge, então, uma questão essencial: de que maneira o reaproveitamento adaptativo pode caminhar lado a lado com as infraestruturas inteligentes de hoje para ampliar o desempenho dos sistemas de transporte de amanhã?
Este artigo é parte dos Temas do ArchDaily: Construir menos: repensar, reutilizar, renovar, reapropriar. Mensalmente, exploramos um tema em profundidade através de artigos, entrevistas, notícias e projetos de arquitetura. Convidamos você a conhecer mais sobre os temas do ArchDaily. E, como sempre, o ArchDaily está aberto a contribuições de nossas leitoras e leitores; se você quiser enviar um artigo ou projeto, entre em contato.

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Descrição enviada pela equipe de projeto. O projeto teve início com a seguinte pergunta do cliente ao arquiteto:
“A sociedade ao nosso redor parece muito madura; no entanto, muitos edifícios estão sendo demolidos um após o outro, mesmo quando ainda têm vida útil suficiente. Isso não acontece justamente por causa da perda de algo essencial?”

Paralelamente, a ABERTO estreia a ABERTO Rua, iniciativa que leva mais de 15 obras comissionadas para o espaço público da Avenida Faria Lima, expandindo a mostra para o tecido urbano. “Na rua, a arte encontra quem não foi convidado”, afirma Filipe Assis, sintetizando o gesto de abrir a experiência artística ao acaso, ao trânsito e à diversidade da cidade.

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Descrição enviada pela equipe de projeto. Nicolas Hugoo Architecture concluiu 36 unidades de habitação social; a LA Architectures, uma biblioteca pública e 75 apartamentos familiares; e o atelier Régis Roudil, uma moradia estudantil com 75 apartamentos no bairro Paul Bourget, no 13º arrondissement de Paris. A operação de revitalização do bairro Paul-Bourget teve início em 2014, com o objetivo de romper o isolamento da área e assegurar a melhoria duradoura do panorama urbano para seus habitantes. Liderado pela Elogie Siemp e pela Semapa, e projetado pela Urban Act, este ambicioso projeto de renovação urbana possibilitou a criação de uma nova geração de habitações nesse terreno de 4 hectares, além de restaurar a presença de áreas verdes e da biodiversidade.

Casa EJ / Leo Romano
Casa Crua / Order Matter
Casa AL / Taguá Arquitetura
Terreiro do Trigo / Posto 9
Casa São Pedro / FGMF
Casa ON / Guillem Carrera
Casa Tupin / BLOCO Arquitetos
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