Arquitetura
Contraste como estratégia projetual na arquitetura

O contraste pode ser amplamente utilizado na arquitetura como recurso para destacar aquilo que desejamos evidenciar. Queremos destacar uma entrada? Que o projeto se sobressaia em relação ao entorno? Que nossa arquitetura se torne um marco na paisagem urbana — ou rural? Precisamos criar simbolismos? Garantir legibilidade? Como fazer isso? Como “colocar luz” em algo?
Tudo aquilo que queremos destacar se amplifica pela comparação — por meio de um contraste exagerado, antagônico. Propositalmente, podemos intensificar o uso da escuridão para evidenciar uma única fonte de luz, marcando uma escada de maneira dramática e teatral. Ou então inserir paredes robustas e opacas para fazer sobressair uma entrada leve e transparente.
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Este artigo não busca esgotar as possibilidades do contraste na arquitetura, tampouco todas as razões para utilizá-lo. A intenção é refletir sobre alguns contrastes recorrentes em obras clássicas e contemporâneas no cenário global. Aqui, destacamos pares como: claro e escuro, horizontal e vertical, escala humana e monumental, cores opostas, superfícies lisas e rugosas, aberto e fechado, transparente e opaco, frágil e resistente, leve e robusto, dinâmico e estático, antigo e novo, geométrico e orgânico, natural e artificial, além da sobreposição, quando múltiplos contrastes são combinados intencionalmente para ressaltar um ponto.
Claro e escuro
Talvez um dos contrastes mais simbólicos nas artes e na arquitetura, o claro e escuro é explorado intensamente desde o movimento artístico chiaroscuro, em que a luz e a sombra criam profundidade, volume e drama. Na arquitetura, Tadao Ando é um dos principais nomes a dominar essa linguagem. Na Church of the Light, ele usa rasgos na estrutura para desenhar o espaço com luz. É como se usássemos um lápis de luz para reforçar o simbolismo de cada elemento arquitetônico.

Horizontal e vertical
No vocabulário arquitetônico, horizontalizar é expandir lateralmente; verticalizar é projetar em direção ao alto. O movimento Art Déco explorava esse contraste para marcar acessos e dar imponência aos edifícios. No Breakwater Hotel, em Miami, a entrada vertical contrasta com o corpo horizontal do prédio, criando um ponto focal nítido.

Escala humana e monumental
Na arquitetura, é amplamente disseminada a ideia da escala humana e como essa deve ser respeitada, mas e nos casos em que isso não acontece? Pegamo-nos observando prédios imensos que nos fazem parecer pequenas formigas em um mundo muito maior do que podemos alcançar. A monumentalidade é usada justamente para enfatizar a grandeza do alto, em igrejas e prédios governamentais, por exemplo.
A escala humana orienta muitos projetos arquitetônicos, mas a monumentalidade também tem seu papel: cria impacto, reverência e sensação de grandeza.
Esse contraste é evidente quando grandes estruturas convivem com elementos menores ou com o corpo humano. No bairro La Défense, em Paris, edifícios contemporâneos se impõem ao lado de construções históricas, criando uma tensão entre tempos e proporções.

Cores opostas
Desde cedo aprendemos sobre cores complementares. Na arquitetura, esse conhecimento é aplicado para criar legibilidade e diferenciação. O 7 Sisters Housing Complex, por exemplo, usa cores contrastantes para distinguir visualmente sete blocos residenciais, facilitando a orientação e reforçando identidades distintas.

Superfícies lisas e rugosas
O tato é talvez o sentido mais aguçado de um arquiteto. Texturas diferentes nos convidam ao toque, orientam percursos e criam sensações. Na arquiteturas de interiores, podemos demarcar áreas de passagem das áreas de permanência através da aplicação de texturas mais aconchegantes em uma sala de estar, ao redor de uma lareira, por exemplo.

Na Pace Flagship Store, diferentes pisos e texturas criam zonas de uso e guiam a experiência do usuário, misturando o liso e o rugoso em harmonia sensorial.

Aberto e fechado
Esse contraste é direto: espaços amplamente abertos versus espaços enclausurados. É, talvez, o contraste mais usado — e, paradoxalmente, o menos perceptível como — tal arquitetura, desde o início dos tempos. Um grande paredão seguido por uma grande janela, muitas vezes para uma vista diferenciada. Um grande pórtico de abertura delimitando uma entrada. Não há segredo nesse contraste, mas uma beleza indescritível em direcionar a atenção do usuário para algo.

Na Fundação Iberê Camargo, rampas fechadas com pequenas aberturas moldam a percepção do visitante, revelando vistas específicas da paisagem de Porto Alegre.

Transparente e translúcido
A diferença entre o que se vê claramente e o que apenas se sugere. O transparente expõe; o translúcido preserva a intimidade, mas permite entrada de luz. Na Biblioteca da Universidade de Aberdeen, uma fachada de vidro alterna trechos translúcidos e transparentes, equilibrando visibilidade e privacidade.

Frágil e estável
Há projetos que evocam delicadeza, ainda que estruturalmente sólidos. A aparência frágil exige cuidado, quase silêncio. Aqui, quando falamos em fragilidade, não estamos querendo falar sobre um material aparentemente quebrável, mas sim a forma como ele está inserido no sítio. É quase como se ele estivesse em equilíbrio e um simples sopro pudesse derrubá-lo. Nesse sentido, o estável também não requer necessariamente uma robustez ou dureza no material, mas sim em sua forma de prender-se ao chão.
O Serpentine Pavilion de Francis Kéré demonstra isso com sua cobertura leve que parece flutuar sobre blocos sólidos, presos ao chão.

Leve e robusto
Leveza não é sinônimo de fragilidade — assim como robustez não implica rigidez absoluta. Esse tipo de contraste pode ser facilmente identificado pelas características morfológicas entre os elementos da arquitetura, e pode ser reforçado pela materialidade aplicada. Também pode escancarar uma diferença em estilos arquitetônicos de épocas diferentes. Na Destilaria Bombay Sapphire, estruturas envidraçadas e orgânicas contrastam com a massa do edifício histórico, criando harmonia entre o sólido e o etéreo.

Dinâmico e estático
Enquanto o estático é firme, o dinâmico carrega energia e movimento. Em arquitetura, esse contraste é geralmente simbólico — mas pode ser literal. O Museu de Milwaukee, de Santiago Calatrava, literalmente se move. Suas “asas” abrem e fecham, mostrando como a arquitetura pode transcender a imobilidade.

Antigo e novo
Classicamente, as cartas patrimoniais exigem que intervenções em edifícios antigos devam ocorrer utilizando-se de estilos arquitetônicos vigentes no momento da intervenção, marcando claramente o antigo e o novo. É como se o edifício – ou rua, ou cidade, ou bairro – fosse uma linha do tempo materializada em arquitetura. Tem-se como um exemplo muito clássico o Louvre, em Paris. É possível ver a arquitetura antiga do século XII ao século XVIII, e a contrastante pirâmide de vidro projetada por I.M. Pei no ano de 1989, materializando a coexistência de épocas.

Geométrico e orgânico
A linguagem arquitetônica pode ser rígida e racional — ou fluida e sensorial. As linhas geométricas expressam ordem, controle e racionalidade. Por outro lado, as linhas orgânicas se inspiram nas formas da natureza: sinuosas, assimétricas e fluidas. Na Casa das Canoas, Oscar Niemeyer combina paredes curvas e retas, eixos ortogonais e gestos orgânicos. O projeto se deita sobre o terreno, flui com a paisagem e, ao mesmo tempo, mantém estrutura e clareza.


Natural e artificial
Com a urbanização crescente, o natural muitas vezes é apagado. Ainda assim, há projetos que ressaltam esse contraste. Essa pode ser, é claro, uma decisão projetual de como encarar a natureza na arquitetura: podemos mimetizar a arquitetura na paisagem, explorando materiais que remetam ao próprio entorno, com a utilização de superfícies naturais como pedra e madeira, bem como respeitar desníveis do terreno e pensar na construção moldada à superfície; ou podemos escancarar a arquitetura, quase como um templo (como diria Simon Unwin), que é quase independente da geografia, como uma plataforma, um objeto pousado, com materiais contrastantes e formas antagônicas.
O Museu de Arte Contemporânea de Niterói, por exemplo, destaca-se como objeto futurista diante da paisagem rochosa e marinha, criando um diálogo entre o feito pelo homem e a natureza.

Sobreposição
Chamamos aqui de ‘sobreposição’ quando usamos mais de um contraste como forma de estabelecer um ponto. A catedral de Brasília, projetada por Oscar Niemeyer, por exemplo, cria um acesso fechado, escuro, com pé direito em escala humana, horizontal, monocromático, simbolicamente como o ‘profano’. Depois, entra-se na nave principal da igreja, muito aberta, iluminada, com escala monumental, vertical, multicolorida, simbolicamente o ‘divino’. É uma sobreposição de diversas características físicas para exaltar um ponto, criando simbolismo através da forma. Ainda que a sobreposição de vários contrastes não seja necessária para marcar um ponto na arquitetura, sua presença pode indicar uma riqueza visual importante na simbologia da construção.


Fonte: Archdaily
Arquitetura
Casa Colibri / Estudio Libre MX

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- Área:
376 m²
Ano:
2025

Descrição enviada pela equipe de projeto. Localizada ao sul da Cidade do México, esta casa foi projetada com o objetivo de acolher encontros e eventos, oferecendo um espaço de convivência e lazer familiar, tendo a piscina como eixo central do projeto.

Arquitetura
Tudo azul: apartamento de 40 m² com decoração inspirada no livro Vinte Mil Léguas Submarinas

Projetar um apartamento de 40 m² de frente para o mar implica, necessariamente, assumir uma posição. Nesse caso, o Zyva Studio decidiu fazê-lo sem rodeios e mergulhou de cabeça. Literalmente. Em Marselha, a poucos metros do porto e da Catedral de La Major, o projeto foi concebido como uma cápsula subaquática ancorada à cidade — um lar azul onde a arquitetura é um exercício de imersão, e não de contemplação.
Da janela, é o horizonte que define o tom do projeto. O azul se desdobra como uma paisagem contínua, diluindo as fronteiras entre interior e exterior, realidade e ficção. Aqui, não estamos apenas em Marselha: estamos também dentro de Vinte Mil Léguas Submarinas, um clássico escrito por Júlio Verne. Essa é a referência literária que guia a imaginação de Anthony Authié, fundador do estúdio responsável pelo projeto, que descreve o espaço como “uma reinterpretação livre de uma paisagem subaquática”.
Nesse interior, o azul é o protagonista absoluto. Mas não um azul decorativo, e sim um azul envolvente, quase físico. Ele aparece no chão, que assume a cor do horizonte do mar, nas paredes e, com especial intensidade, no banheiro, inteiramente revestido de mármore da mesma tonalidade. Authié o descreve como um espaço “cavernoso e monástico”, um lugar de contemplação onde o silêncio parece se amplificar. A sensação não é apenas visual: é perceptiva e sensorial.
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Uma divisória com janelas redondas separa a área social do quarto; no piso, uma versão em tons creme das tradicionais listras náuticas
Yohann Fontaine/Divulgação
Anthony Authié, do Zyva Studio, reinterpreta a paisagem aquática neste apartamento de 40 m² no centro de Marselha
Yohann Fontaine/Divulgação
As vigias reforçam essa ideia. Funcionam como limiares simbólicos entre os cômodos e, ao mesmo tempo, como alusões à ficção científica oceânica. Olhar através delas é observar outro mundo por dentro, como se o apartamento se movesse entre duas realidades sobrepostas.
A identidade do Zyva Studio se revela nos detalhes: puxadores que lembram ouriços-do-mar, tomadas impressas em 3D em formato de água-viva, algas imaginárias emergindo das paredes. Até mesmo os móveis, com suas formas arredondadas, parecem vivos, integrados a esse ecossistema imaginado. No quarto, um pequeno espelho posicionado no centro de uma armadilha para ursos faz alusão ao mito de Narciso: para se ver, é preciso se aproximar, correndo o risco de ser capturado.
A sala de jantar, em tons de areia, é um espaço contínuo definido por formas curvas e mobiliário feito sob medida
Yohann Fontaine/Divulgação
Uma pia de aço e um espelho que lembra ouriços-do-mar adornam o cômodo
Yohann Fontaine/Divulgação
Detalhe do dormitório também decorado com marcenaria azul e itens de cama bege
Yohann Fontaine/Divulgação
Uma única divisória central atravessa o apartamento, separando claramente a área diurna — cozinha e sala de estar — da área noturna, onde ficam o quarto e o banheiro. Essa parede é pintada de azul profundo, enquanto o restante recebe um bege mineral que remete às rochas da cidade. O piso, com padrão náutico em tons de creme, evoca a fachada da Catedral de La Major e, ao mesmo tempo, revisita um dos grandes clássicos do design de interiores — um exercício recorrente na obra de Anthony Authié, sempre interessado em desafiar o familiar para levá-lo a outro patamar.
A cozinha em tons de bege mineral se abre para a sala de estar
Yohann Fontaine/Divulgação
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A parede divisória possui armários com acabamento em puxadores desenhados pelo Zyva Studio
Yohann Fontaine/Divulgação
Para diluir a fronteira entre os dois mundos — e brincar com essa separação sem torná-la rígida —, as janelas redondas rompem a divisória num gesto simbólico, permitindo a passagem de um mundo para o outro. “É a curiosidade de uma criança que espreita por um buraco de rato para descobrir a paisagem do outro lado”, explica o designer.
O projeto convida a olhar e a ser olhado, a observar a vida na sala de estar a partir do quarto e vice-versa, estabelecendo um diálogo visual constante entre os espaços. Assim, o apartamento se torna um dispositivo de fuga: “Este lugar permite escapar do cotidiano e viajar para um mundo diferente. Pelo menos, é esse o meu objetivo.”
*Matéria publicada originalmente na Architectural Digest França
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Fonte: Casa Vogue
Arquitetura
Esta vila de apenas 400 habitantes já foi o grande paraíso dos artistas espanhóis
Delgado, hoje considerado um dos maiores representantes do expressionismo espanhol, deixaria registrado o nome de todos os que viveram neste refúgio de artistas, com anotações como “Enrique Azcoaga, caminhante solitário e poeta autor de vários poemas sobre o povoado”; ou “Frank Mendoza, escritor surpreendente e inesperado”, para concluir que “Todos pintaram aqui, escreveram, passearam, encontraram-se e espalharam seu entusiasmo. Foi um momento surpreendente, dificilmente repetível, que deixou em nossas almas melancolia e saudade de um tempo tão próximo e já distante.”
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