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Laboratório rural: o campo como espaço de experimentação na América Latina

Já faz alguns anos que o campo deixou de ser apenas o contraponto pictórico às cidades e passou a funcionar como um laboratório ativo de novas relações entre território, paisagem e pessoas. Nele, a urgência ambiental encontra a memória coletiva; técnicas ancestrais dialogam com experimentações arquitetônicas; comunidades locais operam como curadoras do seu próprio território. A ruralidade contemporânea emerge menos como geografia e mais como cultura — inscrita em modos de vida que cuidam do meio ambiente.
Trata-se de uma vasta zona rural que se espalha pelo planeta assumindo distintas expressões conforme o contexto — dos arrozais asiáticos aos assentamentos agrícolas africanos, das pequenas propriedades europeias aos latifúndios e comunidades agroextrativistas das Américas. Ainda assim, por trás dessa pluralidade, haveria algo que as une? E, sobretudo, como a arquitetura revelaria esse elo silencioso?
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Para situar esse debate, vale revisitar a definição clássica de Bernard Kayser, segundo a qual as regiões rurais se distinguem por baixa densidade populacional, predominância vegetal e atividades associadas à agro-silvo-pastorícia. Contudo, Kayser adverte: o rural não deve ser interpretado sob o prisma urbano nem reduzido à nostalgia do passado. Ele configura uma forma singular de relação com o território, enraizada no local. Esse enraizamento impossibilita a existência de uma “sociedade rural” homogênea; ao contrário, dá origem a ecossistemas complexos de convivência, atravessados por redes globais de produção, comunicação e imaginação.
Laboratório rural: o campo como espaço de experimentação na América Latina
É nesse cenário que a arquitetura rural desponta como terreno fértil de experimentações. Diversa como o próprio planeta, mas atravessada por convergências silenciosas, ela surge em 2025 com reflexões comuns. Esse movimento é evidenciado nos projetos publicados ao longo do ano no ArchDaily, em obras que incorporam materiais locais — bambu, taipa, madeira — e técnicas vernaculares transmitidas entre gerações, assim como em arquiteturas que reconhecem o clima como parceiro e a comunidade como coautora.
Uma arquitetura rural que não fetichiza a tradição nem idealiza o progresso como ruptura. Ela converte o cotidiano — a confluência entre memória, trabalho e paisagem — em matéria construída. Se, convencionalmente, o campo foi associado ao passado e a cidade ao futuro, esses projetos operam uma inversão de perspectiva: apresentam o rural como horizonte capaz de antecipar outra ideia de futuro — um futuro que convive com a natureza, reconhece o local e traduz em matéria aquilo que o território oferece.
A seguir, apresentamos alguns projetos rurais de 2025 que, mesmo em diferentes contextos, tornam visível essa forma de habitar e construir o campo.
No contexto contemporâneo, o campo se converte em palco de indagações — um lugar onde a arquitetura testa limites e convoca experiências sensoriais. Nesse cenário, proliferam instalações e pavilhões que convidam ao contato direto com a natureza, ora revelando questões de cuidado e sustentabilidade, ora reativando gestos comunitários e modos de vida ancestrais.
Nessas estruturas, a arquitetura nasce do gesto humano: o bambu entrelaçado que se transforma em abrigo coletivo no Bamboo Theater; a torre que converte o horizonte em percurso no Hito Entrelazos; ou o solo que registra a passagem humana em Trace of Land. Embora mínimas em escala, elas produzem impactos existenciais, ativando valores relacionados à memória, encontro e contemplação. Independentemente de surgirem em Taiwan, no Chile ou em qualquer outra latitude, acionam uma linguagem comum — a do gesto que se converte em espaço vivido, capaz de traduzir percepções coletivas sem recorrer à monumentalidade.





Em zonas rurais, a arquitetura escolar não é apenas abrigo para atividades pedagógicas, ela aproxima a população de um serviço essencial que fortalece comunidades e cria possibilidades de futuro. Onde a distância física, a precarização de infraestrutura e a dispersão territorial costumam limitar o acesso ao ensino, o edifício se converte em ferramenta concreta de igualdade — um ponto de encontro capaz de articular saberes, cuidados e pertencimento.
Nesse horizonte, projetos como a Hiwali School, na Índia e a Hway Ka Loke School, na Tailândia, partem do terreno como premissa. A primeira brota do relevo, transformando a topografia em espaço de aprendizagem; a segunda dissolve os limites entre interior e exterior, convidando a comunidade a participar do campus. Nelas, a arquitetura atua como ferramenta de ensino: o tijolo de argila vira saber incorporado, e pátios e áreas abertas deixam de ser recurso formal para se tornarem formas de convivência adaptadas ao clima e aos modos de vida locais.



Nos territórios rurais, a cultura se revela naquilo que permanece materializado pela memória. Quando um espaço como La Panificadora, no Equador, cria um ambiente comunitário de produção e aprendizagem do pão, a arquitetura não estabelece apenas “programas”: ela reativa gestos que já habitavam a paisagem — trabalho, ofício, encontro. O terreno torna-se um arquivo vivo, e a arquitetura apenas lhe dá forma.
Em outra direção, o ET-302 Memorial, na Etiópia, opera de modo íntimo, materializando o luto coletivo no próprio lugar onde o trauma se inscreveu. Assim, percebe-se que, no meio rural, a arquitetura cultural parece não nascer de uma invenção ex nihilo, mas de uma interpretação sensível: ora ativando práticas comunitárias, ora acolhendo a memória dos acontecimentos. Um valor que reside menos na imponência e mais na capacidade de revelar o significado latente do território.



Habitar o rural hoje não significa recuperar imagens idílicas do passado nem projetar utopias tecnológicas para o futuro. O que essas casas evidenciam é uma ética do cotidiano: morar no campo é aprender a conviver com os ritmos do trabalho, com a intimidade da vida doméstica e com a presença constante do ambiente.
Projetos como a Teacher’s House, na República Dominicana, que se adapta ao ritmo de uma pequena comunidade, e o Housing NOW, em Myanmar, que oferece moradia rápida com sistemas leves de bambu local, mostram que a arquitetura rural emerge do cotidiano: ela responde a necessidades concretas, acolhe modos de vida e se molda ao contexto em vez de impor um estilo. Ao incorporar materiais disponíveis e pousar sobre o solo com simplicidade, esses projetos criam continuidade entre o que já existe no território e o que se transforma.



Este artigo é parte dos Temas do ArchDaily: Resumo do ano. Mensalmente, exploramos um tema em profundidade através de artigos, entrevistas, notícias e projetos de arquitetura. Convidamos você a conhecer mais sobre os temas do ArchDaily. E, como sempre, o ArchDaily está aberto a contribuições de nossas leitoras e leitores; se você quiser enviar um artigo ou projeto, entre em contato.
Laboratório rural: o campo como espaço de experimentação na América Latina

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Descrição enviada pela equipe de projeto. Este projeto consiste na intervenção em uma casa tradicional antioquenha, localizada no sudoeste do estado colombiano, em um território montanhoso e de clima quente.


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Descrição enviada pela equipe de projeto. Um jardim de infância primordial, moldado pelo espírito do lugar e pelas emoções da criança. Um espaço simultaneamente protegido e onírico, seguro e aberto às maravilhas. Uma pequena aldeia: um conjunto abstrato de volumes piramidais articulados por pátios abertos. Uma escola vermelha, quente e acolhedora, que se eleva entre as árvores, aninhada no verde.

Com apenas três metros de largura, esta casa ultracompacta em Washington, DC, parece impossível de morar à primeira vista – porém, seus interiores bem planejados a transformaram em um refúgio aconchegante e moderno. Chegando a 1,8 metro no trecho mais estreito, a residência conta com 55 m² e foi vendida pelo valor surpreendente de US$ 484 mil (mais de R$ 2,5 milhões).
Casa EJ / Leo Romano
Casa Crua / Order Matter
Casa AL / Taguá Arquitetura
Terreiro do Trigo / Posto 9
Casa São Pedro / FGMF
Casa ON / Guillem Carrera
Casa Tupin / BLOCO Arquitetos
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