Arquitetura
Trienal de Arquitetura de Lisboa 2025 analisa a tecnosfera e o impacto humano na Terra

Trinta trilhões de toneladas. Esta é a massa estimada de toda a matéria criada pelo ser humano na Terra, e também o ponto de partida da 7ª edição da Trienal de Arquitetura de Lisboa. Curada por Ann-Sofi Rönnskog e John Palmesino, fundadores da Territorial Agency, a edição propõe uma pergunta aparentemente simples: Quão pesada é uma cidade? Para respondê-la, não basta reunir dados. É necessário um deslocamento de percepção: passar da escala da cidade para a dimensão planetária da tecnosfera.
A tecnosfera, um termo emprestado das ciências da Terra, define o vasto sistema de infraestruturas, tecnologias e materiais que sustentam a vida humana enquanto transformam o planeta. Sob essa perspectiva, as cidades não são apenas territórios, mas nós densos dentro desse metabolismo planetário. De outubro a dezembro de 2025, Lisboa se torna uma lente para examinar essa magnitude, hospedando três exposições principais (Fluxes, Spectres, Lighter), um livro de ensaios, um programa de palestras e mais de vinte projetos independentes espalhados pela cidade.
![]()
![]()
![]()
![]()

Pesar uma cidade, portanto, é reconhecer que sua “massa” não é apenas material, mas também social, histórica e ecológica. “A cidade não é mais um objeto”, afirma a curadora Ann-Sofi Rönnskog. “O que acontece em uma cidade afeta outra — seja por poluição, migração ou oceanos transportando espécies invasoras pelo mundo. É um sistema dinâmico.” A Trienal se desenrola como uma tentativa de compreender essa totalidade, que se estende muito além das fronteiras urbanas, alcançando a atmosfera, os oceanos e o tempo profundo.
O Peso Material da Tecnosfera
Na exposição Fluxes, no MAAT – Central Tejo, a massa da tecnosfera começa no solo. Petroleum, de Iwan Baan, oferece um retrato impactante das Areias Betuminosas de Athabasca, no Canadá: uma arqueologia aérea da extração, onde a paisagem se torna simultaneamente recurso e ruína. As imagens revelam o paradoxo do progresso: campos industriais imensos que alimentam economias globais enquanto esgotam a capacidade do planeta de se regenerar.

Nas proximidades, Calculating Empires, de Kate Crawford e Vladan Joler, é uma visualização de pesquisa em grande escala que explora como estruturas técnicas e sociais co-evoluíram ao longo de cinco séculos. Organizado em torno dos temas comunicação, computação, classificação e controle, o projeto traça padrões tecnológicos de colonialismo, militarização, automação e cercamento desde 1500, mostrando como essas forças moldaram, e continuam moldando, sistemas globais de poder.
How Heavy Is Air, do coletivo Trescientosmil, estende essa reflexão para a atmosfera. Ao visualizar décadas de aumento nas emissões de CO₂, o projeto torna visível a arquitetura invisível do ar, agora saturado pela atividade humana.

Ampliando essa reflexão além da extração para suas consequências sociais, um dos projetos independentes no Palácio Sinel de Cordes, Roadside Picnic, de Paul Cetnarski, percorre desvios remotos ao redor de usinas nucleares inacabadas e os assentamentos construídos ao redor delas. Antes destinados a liderar o progresso tecnológico, esses locais agora permanecem à margem da civilização. Juntas, essas obras revelam a cidade como um sistema aberto de fluxos, no qual materiais, dados e energia circulam entre continentes, borrando a linha entre vida urbana e metabolismo planetário.
Percebendo Ecologias
Na exposição Spectres, apresentada no MUDE – Museu do Design, outras obras resgatam a dimensão sensorial e afetiva da consciência planetária. Em Correspondences, ainda em andamento, o Soundwalk Collective e Patti Smith misturam gravações de paisagens remotas em uma meditação sonora inquietante sobre a extinção. De Primavera Silenciosa, de Rachel Carson, às florestas queimando e geleiras derretendo hoje, a obra pergunta: qual é o som da Terra? A resposta oscila entre silêncio e ruído — o vazio abafado deixado pelas espécies desaparecidas e o rugido do capitalismo extrativista.

Aqui, ouvir torna-se uma forma de conhecimento. Uma sensibilidade semelhante ressoa em Terra Preta, de Paulo Tavares e Studio Autônoma, que revisita os solos amazônicos escuros: terras férteis resultantes de sistemas agroflorestais tradicionais de civilizações indígenas. Ao conectar pesquisa arqueológica, restauração ecológica e saberes indígenas, o projeto expõe a falsa neutralidade das paisagens “naturais”, sugerindo que é o cuidado — e não a conquista — que sustenta o solo sob nossos pés.

Ecoando essas questões para além das exposições principais, um dos projetos independentes no Palácio Sinel de Cordes, The Weight of Clean Air, de Xinyu Chen e Jaehun Woo, examina as desigualdades globais no acesso a sistemas de filtragem de ar. Ao enquadrar o ar como matéria e metáfora, a instalação revela como o direito de respirar — a forma mais básica de sustento — permanece distribuído de maneira desigual pelo planeta. Essas obras, entre outras, ampliam o ato de medir para um ato de empatia, convidando-nos a ouvir o pulso do planeta e a perceber o peso não apenas como quantidade, mas como consequência.
Leveza, Percepção e Outras Formas de Ver
“Estamos tentando abordar algo chamado dimensão planetária, mas você nunca consegue perceber o planeta. Você só percebe o seu entorno imediato”, afirma John Palmesino. Na exposição Lighter, apresentada no MAC/CCB – Museu de Arte Contemporânea, a Trienal propõe uma outra forma de confrontar essa magnitude: por meio da percepção em si. Em Parallel Worlds III – The Dawn of Twilight, de Adrien Lucca, ocorre um experimento luminoso no qual plantas crescem sob espectros de luz artificial em constante mudança. As cores mutantes tornam visível que o que chamamos de “visível” depende inteiramente do ponto de vista — humano, animal ou tecnológico.

Em The Thermodynamic Garden, de Pablo Pérez-Ramos, a entropia se torna um princípio de design. Em vez de resistir à decadência, o projeto abraça a transformação como forma de beleza, sugerindo que a arquitetura pode trabalhar com os processos naturais, e não contra eles. The Tissue of Gaia, de Lynn Margulis, revisitando sua colaboração com James Lovelock, ecoa o mesmo princípio: a Terra se autorregula por meio de redes de microrganismos, com os humanos como participantes, não como condutores exclusivos.


Por fim, Every Thing Eats Light, de Alexandra Daisy Ginsberg, lança uma sombra sobre nosso otimismo tecnológico. A instalação em vitral memorializa a evolução dos cloroplastos, lembrando que nossas invenções também se alimentam de luz solar e matéria, metabolizando o planeta para sua própria sobrevivência. Em conjunto, essas obras sugerem que tornar-se “mais leve” não significa abandonar a tecnologia, mas recalibrar a percepção, enxergar o mundo por outros olhos e reconhecer a interdependência de todas as formas de vida.
O Peso da História — Memória, Diáspora e Legados Coloniais
A questão proposta pela Trienal também implica uma perspectiva histórica. O problema do contexto — de quais cidades carregam o maior peso — torna-se especialmente visível em obras que confrontam dimensões históricas e geopolíticas da arquitetura. Ta-Chim – Weighing a City’s Colonial Legacies, de Lily Wong e Xiaoxi Chen, um dos projetos independentes exibidos no MAC/CCB, confronta os laços duradouros entre Lisboa e Macau, traçando-os por meio da Calçada Portuguesa, os paralelepípedos preto e branco que serviam como lastro em navios coloniais.

No Palácio Sinel de Cordes, outro projeto independente, Bandeira de Kitembo: Ventos da Negritude, de Caio Bruno Carvalho e Alex Gabriel Lemos, transforma o vento em símbolo de movimento e resistência. Inspirada em Kitembo, o signo banto de tempo e ciclos, a instalação conecta Rio de Janeiro, Lisboa, Chicago e Luanda, reimaginando a diáspora africana não como deslocamento, mas como um ato contínuo de criação.

No MNAC – Museu Nacional de Arte Contemporânea, Petrified Museum, da Lighthouse Company, também parte dos projetos independentes, amplia a noção de patrimônio para o tempo geológico. A partir de arquivos do British Geological Survey, mistura fósseis e obras de arte, borrando a fronteira entre cultura e natureza. Aqui, a história se mineraliza literalmente, lembrando que a história da tecnosfera é inseparável da estratigrafia da própria Terra. Articulando o peso cultural e temporal da cidade, esses projetos revelam que as infraestruturas materiais da modernidade não podem ser dissociadas dos sistemas coloniais, ecológicos e epistêmicos que as construíram.
Rumo a Futuros Mais Leves
Perguntar quão pesada é uma cidade é confrontar a magnitude de nossa condição compartilhada. A Trienal de Arquitetura de Lisboa 2025 redefine a arquitetura como prática planetária, uma prática que deve levar em conta o entrelaçamento de forças materiais, biológicas e históricas que moldam a vida na Terra.
A resposta não é um cálculo, mas uma proposição: tornar a cidade mais leve significa redistribuir o cuidado — da extração à regeneração, do domínio à coalizão. Em Lisboa, a tecnosfera torna-se visível não como uma máquina distópica, mas como uma responsabilidade compartilhada, um terreno onde arte, ciência e política convergem. “A arquitetura precisa aprender a viver tanto com o sistema mundial quanto com o sistema terrestre; esse é o objetivo da cidade”, afirma Ann-Sofi Rönnskog.

Durante dois meses, a própria cidade torna-se um instrumento de reconhecimento e imaginação. E se seu peso não pode ser reduzido, ao menos pode ser reequilibrado por novas formas de escuta, percepção e ação coletiva sobre a fina e frágil superfície que todos habitamos.
A 7ª Trienal de Arquitetura de Lisboa ocorre de 2 de outubro a 8 de dezembro de 2025. Como parte de sua programação, reconheceu Yasmeen Lari com o Prêmio Lifetime Achievement Millennium bcp e ReSa Architects com o Début Award. Leia a cobertura completa da Trienal no ArchDaily.
Arquitetura
Casa Colibri / Estudio Libre MX

![]()
![]()
![]()
![]()

- Área:
376 m²
Ano:
2025

Descrição enviada pela equipe de projeto. Localizada ao sul da Cidade do México, esta casa foi projetada com o objetivo de acolher encontros e eventos, oferecendo um espaço de convivência e lazer familiar, tendo a piscina como eixo central do projeto.

Arquitetura
Tudo azul: apartamento de 40 m² com decoração inspirada no livro Vinte Mil Léguas Submarinas

Projetar um apartamento de 40 m² de frente para o mar implica, necessariamente, assumir uma posição. Nesse caso, o Zyva Studio decidiu fazê-lo sem rodeios e mergulhou de cabeça. Literalmente. Em Marselha, a poucos metros do porto e da Catedral de La Major, o projeto foi concebido como uma cápsula subaquática ancorada à cidade — um lar azul onde a arquitetura é um exercício de imersão, e não de contemplação.
Da janela, é o horizonte que define o tom do projeto. O azul se desdobra como uma paisagem contínua, diluindo as fronteiras entre interior e exterior, realidade e ficção. Aqui, não estamos apenas em Marselha: estamos também dentro de Vinte Mil Léguas Submarinas, um clássico escrito por Júlio Verne. Essa é a referência literária que guia a imaginação de Anthony Authié, fundador do estúdio responsável pelo projeto, que descreve o espaço como “uma reinterpretação livre de uma paisagem subaquática”.
Nesse interior, o azul é o protagonista absoluto. Mas não um azul decorativo, e sim um azul envolvente, quase físico. Ele aparece no chão, que assume a cor do horizonte do mar, nas paredes e, com especial intensidade, no banheiro, inteiramente revestido de mármore da mesma tonalidade. Authié o descreve como um espaço “cavernoso e monástico”, um lugar de contemplação onde o silêncio parece se amplificar. A sensação não é apenas visual: é perceptiva e sensorial.
LEIA MAIS
🏡 Casa Vogue agora está no WhatsApp! Clique aqui e siga nosso canal
Uma divisória com janelas redondas separa a área social do quarto; no piso, uma versão em tons creme das tradicionais listras náuticas
Yohann Fontaine/Divulgação
Anthony Authié, do Zyva Studio, reinterpreta a paisagem aquática neste apartamento de 40 m² no centro de Marselha
Yohann Fontaine/Divulgação
As vigias reforçam essa ideia. Funcionam como limiares simbólicos entre os cômodos e, ao mesmo tempo, como alusões à ficção científica oceânica. Olhar através delas é observar outro mundo por dentro, como se o apartamento se movesse entre duas realidades sobrepostas.
A identidade do Zyva Studio se revela nos detalhes: puxadores que lembram ouriços-do-mar, tomadas impressas em 3D em formato de água-viva, algas imaginárias emergindo das paredes. Até mesmo os móveis, com suas formas arredondadas, parecem vivos, integrados a esse ecossistema imaginado. No quarto, um pequeno espelho posicionado no centro de uma armadilha para ursos faz alusão ao mito de Narciso: para se ver, é preciso se aproximar, correndo o risco de ser capturado.
A sala de jantar, em tons de areia, é um espaço contínuo definido por formas curvas e mobiliário feito sob medida
Yohann Fontaine/Divulgação
Uma pia de aço e um espelho que lembra ouriços-do-mar adornam o cômodo
Yohann Fontaine/Divulgação
Detalhe do dormitório também decorado com marcenaria azul e itens de cama bege
Yohann Fontaine/Divulgação
Uma única divisória central atravessa o apartamento, separando claramente a área diurna — cozinha e sala de estar — da área noturna, onde ficam o quarto e o banheiro. Essa parede é pintada de azul profundo, enquanto o restante recebe um bege mineral que remete às rochas da cidade. O piso, com padrão náutico em tons de creme, evoca a fachada da Catedral de La Major e, ao mesmo tempo, revisita um dos grandes clássicos do design de interiores — um exercício recorrente na obra de Anthony Authié, sempre interessado em desafiar o familiar para levá-lo a outro patamar.
A cozinha em tons de bege mineral se abre para a sala de estar
Yohann Fontaine/Divulgação
LEIA MAIS
A parede divisória possui armários com acabamento em puxadores desenhados pelo Zyva Studio
Yohann Fontaine/Divulgação
Para diluir a fronteira entre os dois mundos — e brincar com essa separação sem torná-la rígida —, as janelas redondas rompem a divisória num gesto simbólico, permitindo a passagem de um mundo para o outro. “É a curiosidade de uma criança que espreita por um buraco de rato para descobrir a paisagem do outro lado”, explica o designer.
O projeto convida a olhar e a ser olhado, a observar a vida na sala de estar a partir do quarto e vice-versa, estabelecendo um diálogo visual constante entre os espaços. Assim, o apartamento se torna um dispositivo de fuga: “Este lugar permite escapar do cotidiano e viajar para um mundo diferente. Pelo menos, é esse o meu objetivo.”
*Matéria publicada originalmente na Architectural Digest França
Revistas Newsletter
Fonte: Casa Vogue
Arquitetura
Esta vila de apenas 400 habitantes já foi o grande paraíso dos artistas espanhóis
Delgado, hoje considerado um dos maiores representantes do expressionismo espanhol, deixaria registrado o nome de todos os que viveram neste refúgio de artistas, com anotações como “Enrique Azcoaga, caminhante solitário e poeta autor de vários poemas sobre o povoado”; ou “Frank Mendoza, escritor surpreendente e inesperado”, para concluir que “Todos pintaram aqui, escreveram, passearam, encontraram-se e espalharam seu entusiasmo. Foi um momento surpreendente, dificilmente repetível, que deixou em nossas almas melancolia e saudade de um tempo tão próximo e já distante.”
-
Arquitetura8 meses atrásCasa EJ / Leo Romano
-
Arquitetura8 meses atrásCasa Crua / Order Matter
-
Arquitetura8 meses atrásCasa AL / Taguá Arquitetura
-
Arquitetura9 meses atrásTerreiro do Trigo / Posto 9
-
Arquitetura8 meses atrásCasa São Pedro / FGMF
-
Arquitetura8 meses atrásCasa ON / Guillem Carrera
-
Arquitetura1 mês atrásCasa Tupin / BLOCO Arquitetos
-
Política9 meses atrásEUA desmente Eduardo Bolsonaro sobre sanções a Alexandre de Moraes


