Arquitetura

Adeus aos mestres: homenagem aos arquitetos que perdemos em 2025

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Todos os anos trazem novas ideias, projetos e deslocamentos na cultura arquitetônica, mas também marcam a perda de vozes que moldaram a disciplina ao longo de décadas. A arquitetura avança, mas também se constrói por meio da ausência. Quando desaparecem figuras que ajudaram a formular sua linguagem e suas ambições, o que fica vai além de obras concluídas ou textos influentes. A ausência se torna um limiar — um momento em que a disciplina pausa para compreender o que permanece, o que se transforma e o que continua a nos orientar. Essas perdas nos lembram que a arquitetura é uma construção longa e coletiva, sustentada não apenas por quem atua no presente, mas também por aqueles cujas visões seguem moldando a maneira como pensamos cidades e paisagens.

Os arquitetos e pensadores que perdemos em 2025 vieram de contextos muito distintos, mas as questões que atravessaram seus trabalhos frequentemente se cruzam. Alguns abordaram a cidade a partir da identidade, do simbolismo e da continuidade histórica, buscando ancorar o ambiente construído na memória cultural. Outros a interpretaram por meio da precisão técnica, dos sistemas ecológicos ou da experimentação radical, expandindo os limites do que a arquitetura pode ser e de como pode ser vivenciada. Suas obras atravessam contextos tão diversos quanto a Grã-Bretanha do pós-guerra, a urbanização acelerada da China, as vanguardas centro-europeias e as instituições culturais em transformação de Berlim e Nova York. Juntos, compõem um espectro de respostas que definiu — e continua a definir — a cultura arquitetônica dos últimos cinquenta anos, revelando a multiplicidade de formas pelas quais a arquitetura pode se relacionar com a sociedade, a tecnologia e o meio ambiente.

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Lembrá-los é reconhecer que a arquitetura é formada por muitas vozes — algumas ainda presentes, outras agora silenciosas. Seus trabalhos continuam a nos acompanhar, não como referências distantes, mas como parte do vocabulário cotidiano da disciplina. Revisitar suas contribuições é também um modo de olhar para o futuro, entendendo que as ideias que deixaram seguem ativas nas perguntas que ainda fazemos.

Fulton Center / Grimshaw. Imagem © James Ewin

Reinventando a Arquitetura Britânica

A história da arquitetura britânica na segunda metade do século XX não pode ser compreendida sem reconhecer o impacto de Terry Farrell e Nicholas Grimshaw — duas figuras que moldaram o ambiente construído oferecendo respostas muito distintas a um mesmo momento cultural.

Edifício SIS, também conhecido como Edifício MI6, em Vauxhall Cross. Imagem © I Wei Huang via Shutterstock

A carreira de Farrell está profundamente associada ao surgimento do pós-modernismo britânico. Seus edifícios exploraram o simbolismo, as fachadas como superfícies comunicativas e o potencial expressivo do ornamento — uma postura evidente em projetos como o edifício do MI6, em Londres, ou o Comyn Ching Triangle. Farrell entendia a cidade como um lugar onde camadas históricas coexistem com demandas contemporâneas; sua arquitetura parte da ideia de que o edifício participa de narrativas culturais e pode atuar simultaneamente como estrutura funcional e declaração pública.

Estação Sul de Pequim / TFP Farrells. Imagem cedida por Fu Xing.

Grimshaw, por sua vez, foi um dos principais nomes da arquitetura high-tech. Sua abordagem privilegiava estrutura, desempenho e a exposição da lógica construtiva. Projetos como o Eden Project, na Cornualha, ou o terminal internacional da estação Waterloo exemplificam uma arquitetura que revela seus sistemas em vez de ocultá-los. Para Grimshaw, os edifícios eram estruturas dinâmicas, moldadas por princípios de engenharia e estratégias ambientais. Seu trabalho antecipou muitos dos debates contemporâneos sobre modularidade, adaptabilidade e eficiência material, posicionando o high-tech como uma forma de pensar a relação entre arquitetura e tecnologia.

Terminal Internacional da Estação Waterloo, Grimshaw. Imagem © Jo Reid & John Peck

Apesar de trajetórias divergentes, Farrell e Grimshaw compartilharam o compromisso de reinventar a arquitetura britânica em um período de transição. Suas obras enfrentaram questões de identidade, função e relevância pública, oferecendo dois modelos distintos de como a arquitetura pode responder à mudança cultural.

Moldando a Cidade

Algumas das perdas deste ano ecoam muito além da escala do edifício individual, alcançando o território mais amplo da cidade e de suas transformações de longo prazo. Léon Krier e Kongjian Yu abordaram o urbanismo a partir de direções opostas: um revisitando a lógica espacial dos assentamentos históricos para defender continuidade, proporção e coerência em escala humana; o outro propondo infraestruturas ecológicas capazes de absorver pressões climáticas e regenerar paisagens degradadas. Vistos em conjunto, seus trabalhos estabelecem um diálogo entre tempos distintos, revelando como as cidades podem ser moldadas tanto pela recuperação da memória cultural quanto pela reativação de sistemas naturais. Ambos compartilham a convicção de que a forma urbana não é um pano de fundo neutro, mas uma responsabilidade coletiva construída com cuidado, estrutura e visão de longo prazo.

Esboços de Léon Krier. Imagem cortesia da MIT Press

Krier foi uma voz central no movimento que mais tarde ficou conhecido como Novo Urbanismo. Seus desenhos, ensaios e propostas urbanas defenderam bairros caminháveis, tipologias arquitetônicas tradicionais e hierarquias claras de espaço público. Para Krier, a cidade moderna havia se afastado de formas históricas de habitar, e os princípios clássicos poderiam ajudar a restaurar a coesão social e o equilíbrio ambiental. Sua influência extrapolou a Europa, impactando debates nos Estados Unidos e projetos como Poundbury, desenvolvido em colaboração com Charles III. Concorde-se ou não com suas posições, seu papel na reformulação do discurso urbano é inegável.

Esboços de Léon Krier. Imagem cortesia da MIT Press

Kongjian Yu apresentou uma visão radicalmente distinta: a cidade como sistema ecológico vivo. Fundador do escritório Turenscape e principal teórico do conceito de “cidades-esponja”, Yu propôs infraestruturas capazes de absorver águas pluviais, mitigar enchentes e restaurar paisagens danificadas. Seu trabalho emergiu das condições específicas da rápida urbanização chinesa, mas ganhou relevância global à medida que cidades enfrentam os efeitos das mudanças climáticas. Por meio de parques fluviais, áreas úmidas e corredores ecológicos, Yu demonstrou como espaço público e processos naturais podem operar conjuntamente, redefinindo a resiliência como estratégia espacial. Sua morte trágica, em 2025, interrompeu uma obra que transformou profundamente o pensamento contemporâneo sobre paisagismo e ecologia urbana.

Minghu Wetland Park. Imagem © Turenscape

Experimentação e o Campo Expandido

Enquanto Farrell, Grimshaw, Krier e Yu atuaram sobre grandes estruturas urbanas, Helmut Swiczinsky, Ricardo Scofidio e Dennis Crompton levaram a arquitetura a territórios onde forma, tecnologia e narrativa se cruzam. Suas práticas adotaram a experimentação como método, entendendo a arquitetura não apenas como objeto construído, mas como plataforma de investigação crítica, experiência sensorial e pensamento especulativo.

Musée des Confluences / Coop Himmelb(l)au. Imagem © Duccio Malagamba

Swiczinsky, cofundador do Coop Himmelb(l)au ao lado de Wolf D. Prix, foi fundamental na construção de uma linguagem associada ao desconstrutivismo. Seus projetos incorporaram fragmentação, geometrias dinâmicas e estruturas em aparente movimento. A extensão sobre um telhado em Viena e obras posteriores como o BMW Welt, em Munique, expressam uma metodologia que questiona estabilidade, hierarquia e noções tradicionais de forma. Para Swiczinsky, a arquitetura era um campo de tensão, energia e imprevisibilidade — reflexo direto da vida contemporânea.

BMW Welt / Coop Himmelb(l)au. Imagem via BMW

Ricardo Scofidio teve papel decisivo na consolidação da arquitetura como prática multidisciplinar. Antes de o escritório Diller Scofidio + Renfro se tornar conhecido por grandes projetos culturais e urbanos, sua produção explorava performance, instalação e a política do espaço público. Trabalhos como o Blur Building e as primeiras instalações conceituais investigaram como a tecnologia media a percepção e como os corpos se movem no espaço. Scofidio expandiu os limites da disciplina, questionando a ideia de que arquitetura se define exclusivamente por edifícios.

Museum of Modern Art Renovation / Diller Scofidio + Renfro. Imagem © Brett Beyer

Dennis Crompton, membro fundador do Archigram, representa outra vertente da experimentação arquitetônica. Os desenhos, publicações e projetos especulativos do grupo propuseram cidades baseadas em mobilidade, pré-fabricação e imaginação tecnológica. Como arquivista e guardião da memória do Archigram, Crompton garantiu que esse legado permanecesse acessível e articulado, permitindo que novas gerações continuassem a dialogar com suas ideias. Seu trabalho lembra que inovar também é preservar e transmitir conhecimento.

© Archigram Archives

Infraestruturas Culturais

A arquitetura não se constrói apenas em canteiros de obras ou por meio de desenhos; ela também se forma nos debates, exposições e estruturas culturais que permitem a circulação de ideias. Poucas figuras representaram essa dimensão com tanta clareza quanto Kristin Feireiss, cofundadora do Aedes Architecture Forum. Seu trabalho mostrou que a cultura arquitetônica depende tanto dos espaços de discussão quanto dos edifícios em si.

1992 Zaha Hadid, Patrik Schumacher e Kristin Feireiss. Imagem © Regina Schubert

Desde os anos 1980, o Aedes tornou-se uma das plataformas mais influentes dedicadas à arquitetura, apresentando exposições iniciais ou decisivas de práticas que mais tarde integrariam o vocabulário global da disciplina. O legado de Feireiss evidencia a importância das instituições que cultivam o debate. Sua atuação demonstra que a curadoria não é uma atividade periférica, mas um mecanismo central para que a arquitetura interprete a si mesma, negocie seus valores e amplie seu campo de atuação. Sob sua direção, o Aedes tornou-se um espaço de encontro entre arquitetos, pesquisadores e o público, promovendo diálogos que extrapolaram o cenário cultural de Berlim. Ao lembrá-la, reafirmamos que a cultura arquitetônica avança por múltiplas formas de autoria — e que os espaços dedicados às ideias podem ser tão transformadores quanto as próprias ideias.

Shape Tomorrow, exposição no AEDES Architecture Forum em Berlim. Imagem © Marco van Oel

Arquitetura como Responsabilidade Cívica

O ano de 2025 também marcou a perda de mestres como Robert A.M. Stern, arquiteto que conseguiu articular prática profissional, produção intelectual e liderança acadêmica. Sua filosofia de projeto dialogava com a história da arquitetura, utilizando formas tradicionais e estruturas urbanas para inserir seus edifícios em narrativas culturais duradouras. Para além de sua vasta obra construída, sua atuação como diretor da Yale School of Architecture reforçou a importância da continuidade, da pedagogia rigorosa e do respeito profundo pelas estruturas herdadas da cidade. Seu legado lembra que a arquitetura cívica é sustentada por instituições que produzem conhecimento, formam novas gerações e mantêm debates críticos de longo prazo sobre o ambiente construído.

Shinsegae Namsan Commercial & Offices / Robert A.M. Stern Architects. Imagem © Namsun Lee

Encerrando esta retrospectiva está David M. Childs, cuja obra ocupa uma posição singular na interseção entre arquitetura, espaço público e identidade cívica. Ao longo de décadas no SOM, Childs ajudou a moldar a paisagem urbana de Nova York por meio de projetos que lidam com infraestrutura, acessibilidade e as demandas simbólicas de uma metrópole global. Seu projeto mais emblemático, o One World Trade Center, concebido após uma perda coletiva profunda, tornou-se um exercício de negociação entre memória, segurança e espaço público. A obra sintetiza exigências complexas de engenharia com a necessidade de restabelecer um marco urbano capaz de sustentar a vida cotidiana e, ao mesmo tempo, reconhecer a história do lugar. Ao lembrá-lo, reconhecemos como a arquitetura em grande escala pode carregar significados múltiplos — funcionais, simbólicos e sociais.

One World Trade Center / SOM. Imagem © James Ewing

Juntos, Stern e Childs demonstram como a arquitetura pode expressar aspirações cívicas não apenas por meio de edifícios que servem e reúnem comunidades, mas também pelas instituições que moldam a compreensão da disciplina sobre seu papel público.

Forma e Reinvenção

A morte de Frank Gehry marcou a perda de uma das figuras mais influentes da arquitetura do final do século XX e início do XXI. Poucos arquitetos alteraram de forma tão profunda o vocabulário visual e cultural da disciplina. Gehry tratou a forma como uma questão aberta, utilizando materialidade, estrutura e movimento para desafiar expectativas estabelecidas sobre o que um edifício poderia ser. Desde suas primeiras experiências com materiais simples na casa de Santa Monica até a complexidade escultórica do Guggenheim Bilbao, seus projetos expandiram as possibilidades de expressão arquitetônica sem jamais perder o vínculo com a experiência urbana.

Cortesia de Masterclass

A influência de Gehry extrapolou seus edifícios. O chamado “Efeito Bilbao”, frequentemente simplificado, abriu debates sobre infraestrutura cultural, regeneração urbana e o peso político da arquitetura icônica. Seu escritório explorou os limites da tecnologia, adotando modelagem digital e processos de fabricação avançados muito antes de se tornarem ferramentas comuns. Lembrar Gehry é reconhecer como uma prática pode alterar o rumo da cultura arquitetônica. Suas obras permanecem como parte do vocabulário compartilhado da disciplina, lembrando que a experimentação pode coexistir com o impacto cívico — e que o potencial expressivo da arquitetura está inseparavelmente ligado à sua capacidade de mobilizar a imaginação coletiva.

Gehry Residence / Gehry Partners. Imagem © Liao Yusheng

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Fonte: Archdaily

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