Artigo Relacionado
Mercados públicos: arquitetura do encontro e da troca

![]()
![]()
![]()
![]()


Descrição enviada pela equipe de projeto. Em 2021, os senhores Sachin Agarwal e Nitin Agarwal nos procuraram com a ideia de construir uma casa de campo para fins de lazer em família. No processo de compreender suas necessidades, realizamos várias rodadas de conversas com os irmãos. Pedimos que elaborassem um briefing escrito detalhando suas demandas — documento que deveria incluir também a perspectiva das três gerações que compõem a família.

O Cliente – Trata-se de uma família conjunta formada pelos pais, os filhos com suas respectivas esposas e seus filhos. Os irmãos administram diversos negócios familiares, que vão do setor de aço ao de joias. Os pais, já aposentados, dedicam-se ao convívio familiar e ao aconselhamento diário dos filhos na vida pessoal e nos negócios. Os jovens estão na fase de descoberta do mundo, recém-saídos do ensino médio. Após compreender as necessidades espaciais das três gerações, pedimos que também compartilhassem suas referências e aspirações. Esse processo revelou histórias familiares, experiências de viagem, relatos de conquistas e perdas. Embora já possuam uma casa na cidade, esse mergulho no imaginário familiar nos permitiu compreender o que essa casa de fim de semana deveria representar — tanto física quanto emocionalmente.


O Terreno – O lote está localizado em Muchintal, uma pequena vila tranquila ao sul de Hyderabad. Embora esteja próximo a uma rodovia nacional, descobrimos que ele fica no caminho para a fábrica de aço da família, o que significa que seu uso seria mais frequente do que o de uma típica casa de campo. Assim, a família decidiu criar um espaço com responsabilidade compartilhada de manutenção entre as gerações mais velhas e as mais jovens. O terreno estreito e linear, com 5 acres, praticamente não tinha vegetação, exceto por uma grande figueira-de-Bengala (Ficus religiosa) na metade oeste. O acesso se dá pelo lado leste, o ponto mais estreito do lote, mas optamos por posicionar o volume principal na porção oeste, onde havia uma área considerável livre de rochas expostas e lajes naturais.


A estrada de acesso curva-se organicamente pelo centro do terreno, desviando das rochas expostas e formações de pedra, proporcionando uma chegada interessante até a marquise de embarque e desembarque. Para intensificar essa experiência, uma série de muros baixos foi construída ao longo do percurso, bloqueando a visão direta da casa e preservando o elemento surpresa até a chegada. Ao longo da via, foram distribuídas atividades funcionais, evitando que o percurso fosse apenas um espaço paisagístico sem uso. Um parreiral relembra a rotina de infância de Sachin e Nitin, que visitavam os vinhedos da família com os avós. Quadras esportivas e uma pista de lama para quadriciclo foram criadas para os jovens. Uma cozinha semiaberta atende grandes eventos. Um jardim de pedras articula os afloramentos rochosos existentes com palmeiras do deserto e bougainvilles, evocando paisagens mediterrâneas que marcaram as viagens da família. Áreas de estacionamento foram distribuídas ao longo do terreno, e a construção destinada aos funcionários foi discretamente integrada ao paisagismo, garantindo privacidade.


A Casa – A residência ocupa a metade oeste do terreno, justamente onde não havia rochas expostas, facilitando a construção. O ponto de chegada se dá próximo à grande figueira-de-Bengala, marcando o acesso com força simbólica. Em essência, a casa é organizada por três muros de pedra lineares, que orientam o percurso, estruturam a privacidade e criam uma atmosfera de acolhimento a partir de sua escala. O primeiro muro, localizado ao norte, acompanha uma passarela elevada que conduz da área de desembarque à varanda semiaberta. Além de marcar o eixo de circulação, esse muro também cria privacidade para a piscina localizada do outro lado.

A Piscina – A privacidade foi uma das prioridades do cliente, de modo que membros de todas as idades da família pudessem utilizá-la com conforto. Mesmo com caráter íntimo, o espaço mantém sua conexão com a natureza, graças aos jardins densos que atravessam os vazios entre muros e cobertura. O centro da cobertura permanece aberto ao céu, enquanto os muros laterais garantem privacidade visual.


A Casa Principal – A passarela elevada, suspensa 1,20 m acima do solo, conduz à residência. O segundo muro de pedra, que corta a casa longitudinalmente, separa as áreas comuns — estar, jantar, varandas e cozinha — da ala íntima de dormitórios. Todos os espaços contam com pé-direito interno de 4,60 m, porém uma laje intermediária a 3 metros percorre todo o perímetro, criando variações espaciais e acolhimento.

Os Beirais – Um beiral em balanço, variando entre 2,40 m e 3 metros de extensão, percorre toda a casa, dividindo as fachadas em dois planos: caixilhos de 2,75 m abaixo e uma faixa superior de 76 cm de venezianas altas (clerestory). Esses beirais protegem as superfícies envidraçadas ao longo do dia, reduzindo o ganho térmico e permitindo vistas contínuas. Sobre a laje dos beirais, a vegetação se desenvolve e é percebida a partir das aberturas superiores, projetando sombras dinâmicas e filtrando a luz natural.


A Base Suspensa – Toda a casa parece flutuar sobre um espelho d’água que a circunda, com plantas aquáticas e peixes. Além do efeito sensorial, essa lâmina d’água atua como barreira natural contra cobras e outros animais rasteiros comuns em áreas naturais. Esse jogo de planos flutuantes — beirais, lajes e embasamento — reduz a escala percebida da construção e estabelece uma relação mais humana e acolhedora.

Os Eixos Centrais – A residência dissolve-se visualmente em dois eixos principais — leste-oeste e norte-sul — garantindo transparência e orientação espacial. Esses eixos convergem em quatro pontos marcados por salgueiros-chorões e áreas de estar pavimentadas em pedra, criando pequenas praças contemplativas.


A Paisagem – A massa de vegetação em torno da casa foi estrategicamente recuada 12 metros, mantendo gramados livres ao redor da construção. Esses vazios permitem ventilação cruzada constante e reduzem o ganho térmico do edifício. Também funcionam como áreas flexíveis para encontros familiares frequentes. Em vez de um paisagismo ornamental excessivo, optou-se por arbustos baixos junto ao espelho d’água, reforçando a leveza da arquitetura. Coqueiros foram estrategicamente posicionados para quebrar a escala do volume e dialogar com sua forma. Trepadeiras pendentes descem das bordas dos beirais, oferecendo sombra e criando uma relação temporal com o vento e a passagem do dia. A vegetação mais densa foi mantida distante, compondo quadros naturais a partir de qualquer abertura da casa.

Ao chegar à varanda, somos recebidos por uma escada escultórica maciça, que atua como pano de fundo para um lounge semiaberto. Graças ao sistema de portas de correr, a varanda integra-se totalmente à sala de estar, transformando-se em um grande pavilhão contínuo. Esse espaço é dinâmico e adaptável, acomodando a vida em família e encontros sociais com fluidez. O terceiro muro de pedra acompanha toda a face sul, abrigando as áreas de serviço discretamente.

Os Dormitórios – Dos cinco dormitórios, quatro ficam no térreo, reforçando a relação da casa com o solo. Apenas um quarto está localizado no pavimento superior, no canto sudeste, de onde se tem vista panorâmica do jardim frontal.

Paleta de Materiais – Acostumados a casas urbanas sofisticadas, o cliente desejava que esta residência fosse uma experiência sensorial mais autêntica e conectada à essência dos materiais. As paredes receberam reboco de cal em tom cinza claro, conferindo neutralidade e integração com o entorno. Os três grandes muros estruturadores foram construídos em arenito marrom de Khammam, enquanto o piso é de pedra ardósia de Markapuram. Ambas as pedras são provenientes da região de Telangana, fortalecendo o vínculo com o contexto local. As paredes de arenito possuem textura porosa, que permite o crescimento das trepadeiras, enquanto a ardósia, com sua superfície levemente irregular, convida ao caminhar descalço. Mobiliário em madeira teca de demolição e tampos com bordas naturais reforçam a linguagem orgânica. Tapetes e cortinas de juta dissolvem-se no ambiente. Perfis metálicos pretos, luminárias aparentes e ferragens criam contraste delicado com a base cinza, adicionando leve rigor contemporâneo.

No conjunto, esta casa foi concebida para reunir a família — talvez até mais do que a residência principal na cidade. Um espaço para receber amigos com orgulho. Um lugar que nasce de memórias e significados. Um lugar que acolhe as aspirações dos mais jovens e o sossego dos mais velhos. Um lugar de conexão honesta com a natureza, tanto na materialidade quanto na forma de habitar. Um espaço contemporâneo no uso, mas atemporal na essência. Um refúgio guiado pelos elementos fundamentais — luz, ar, terra e céu — que convida à introspecção. Um espaço transgeracional. Por isso, recebeu o nome ANTRIYA — um espaço para refletir e retornar a si.


![]()
![]()
![]()
![]()

2018
Fabricantes: CIFIAL, CIN, Duravit, GRAPHISOFT, Oli, Sanitana, Velux,

Descrição enviada pela equipe de projeto. Situado num terreno praticamente plano e de forma retangular, o lote é orientado no sentido Nordeste/Sudoeste que culmina num pinhal. A Casa no Meco foi pensada a partir da regeneração de uma casa preexistente, com a ideia de dar-lhe um novo caracter, reconstruindo-a com outra qualidade. A principal característica da casa é a relação com o exterior, sendo reconstruída num único piso e dotada de uma fachada transparente que cria um panorama sobre o pinhal a Sudoeste a partir de um amplo envidraçado.

“Minha intervenção atual, a convite dos moradores, tem a função de atualizar e adequar a grande casa à vida da família”, diz o arquiteto Carlos Boeschenstein, que criou o espaço artístico e a sala de ginástica, além de retrabalhar toda a iluminação para valorizar as madeiras da estrutura típica de Zanine e, ao mesmo tempo, destacar as peças da “artista residente” – neste caso, literalmente. Raquel estudou sua arte na Heatherleys School of Fine Arts, no Morley College e na University of the Arts of London, e já expôs suas obras, desde 2019, na Casa Brasil, no Centro Cultural dos Correios e no Consulado da Argentina, além de galerias diversas, sempre no Rio de Janeiro.

A arquitetura costuma ser representada como um objeto estável: um edifício capturado em um momento de clareza visual, isolado das contingências ao redor. Plantas, cortes e fotografias prometem legibilidade ao suspender o tempo. No entanto, muitos dos espaços públicos mais duradouros do mundo resistem completamente a esse modo de representação. Eles não foram feitos para serem compreendidos de imediato, nem revelam sua lógica apenas pela forma. Sua inteligência espacial emerge aos poucos — pela repetição, pela ocupação e pela duração.
O bazar se insere com firmeza nessa categoria. Ele não pode ser entendido por um único desenho ou por uma elevação finalizada. Sua organização não é fixa, é ensaiada diariamente. O que o sustenta não é apenas a composição arquitetônica, mas o tempo compartilhado, a memória coletiva e padrões de uso construídos ao longo dos anos. A convivência no bazar não nasce de decisões formais de projeto; ela é produzida por encontros repetidos, proximidades negociadas e familiaridade social acumulada no tempo.
![]()
![]()
![]()
![]()


Observar um bazar com atenção é reconhecer a arquitetura operando como um sistema temporal. Mercados não funcionam de maneira contínua e uniforme. Eles se montam, se intensificam, pausam, se transformam e se dissolvem — muitas vezes dentro de um único dia. Da atividade noturna do Mercado de Flores Dadar, em Mumbai, à precisão matinal do Mercado de Tsukiji, em Tóquio, esses ambientes são regidos menos por fechamentos espaciais e mais por coordenação no tempo.
Mercados públicos: arquitetura do encontro e da troca
A regulação acontece por repetição, não por imposição. A orientação se dá pela familiaridade, não pela sinalização. A memória assume o papel que, em geral, caberia às paredes e aos limites físicos. Ao longo do dia, ferramentas arquitetônicas convencionais começam a perder relevância. Plantas não conseguem registrar o movimento; diagramas de zoneamento falham em captar a sobreposição. Em seu lugar, é preciso outro tipo de leitura espacial — uma que reconheça o tempo como estrutura organizadora e o comportamento como um material arquitetônico central.

Entre a meia-noite e o início da manhã, muitos mercados se formam fora do olhar da cidade. No Mercado de Flores KR, em Bengaluru, essa lógica temporal está ligada ao papel da cidade como polo agrícola e comercial regional. As flores chegam durante a noite, vindas de distritos vizinhos e outros estados, sincronizadas com a demanda do atacado nas primeiras horas do dia e com a necessidade de evitar o calor e o trânsito diurnos. O mercado ocupa um tecido urbano denso, sobreposto por rotas de transporte, instituições religiosas e ruas comerciais históricas. Sua montagem segue o hábito, não a alocação formal.

Superfícies temporárias são estendidas. Feixes de flores definem bordas e caminhos. Poucos estandes existem no sentido arquitetônico tradicional, mas os limites espaciais são claramente compreendidos. Os vendedores retornam aos mesmos pontos todos os dias, guiados pelo reconhecimento social, não por marcações físicas. O território se mantém pela continuidade, não pela posse. A ordem espacial é construída coletivamente, sem infraestrutura visível ou controle centralizado. Aqui, o bazar revela uma inteligência arquitetônica raramente reconhecida: ambientes feitos pela repetição, e não pela permanência; legibilidade sustentada pela memória, e não pelo fechamento material.
Nas primeiras horas da manhã, a atividade se intensifica. Troca no atacado, compras no varejo, logística e demandas rituais se sobrepõem num intervalo de tempo extremamente comprimido. A proximidade do mercado com ruas comerciais e áreas de culto o insere num tecido urbano historicamente denso. Do ponto de vista do planejamento, essa concentração costuma ser lida como desordem. No nível do chão, porém, o espaço opera com precisão.

Os fluxos se ajustam em torno de carrinhos, motos e carregadores. Certos caminhos se alargam ou se estreitam conforme o volume, não conforme a dimensão física. Limiares mudam de função sem alteração arquitetônica. O que parece caótico de cima funciona como um sistema calibrado por hábito, familiaridade e ajuste mútuo. Aqui, a densidade não indica falha do planejamento — indica sucesso da organização temporal. A arquitetura atua menos como separação e mais como estrutura para negociação constante.
Com o avanço do dia, a intensidade diminui. A ênfase passa da transação ao descanso, à manutenção e à troca social. Em mercados como o de Mapusa, em Goa, essa desaceleração é estrutural. O ritmo do mercado se vincula mais aos ciclos agrícolas semanais e sazonais do que à demanda diária. O pico ocorre pela manhã; depois, o tempo se alonga.

Nessas horas, o mercado se expande e se contrai no tempo, não no espaço. A forma construída oferece sombra, bordas e superfícies duráveis, mas recua em protagonismo. A organização se dá por expectativa mútua. Conversas se estendem. Assentos improvisados surgem onde nada foi projetado. O mercado continua ocupando o espaço sem produzir troca material. Essa pausa não é ineficiência — é inteligência espacial. Ela permite que o sistema se recupere e se sustente ao longo das semanas e estações.
À medida que o comércio se encerra, muitos mercados se transformam profundamente. No Campo de’ Fiori, em Roma, a retirada das barracas revela uma praça cívica. O mesmo chão que sustentava caixas e circulação pela manhã passa a acolher encontros e lazer à noite.

Essa mudança acontece sem qualquer intervenção arquitetônica ou reprogramação formal. O uso se transforma, mas a memória do espaço permanece. Mesmo sem as barracas e objetos, os vestígios do mercado continuam legíveis, e as pessoas ainda reconhecem onde a atividade acontecia, orientando-se pela familiaridade — não por placas ou dispositivos de design. O espaço não precisa anunciar sua nova função; ele simplesmente a incorpora. O êxito desses ambientes não está na “flexibilidade” como recurso projetado, mas na ausência de restrições. A arquitetura se mantém aberta o suficiente para acolher diferentes condições sociais ao longo do tempo, sem impor hierarquias nem fixar permanências. Ao evitar definir o uso com excesso de precisão, o mercado garante continuidade entre o comércio e a vida pública, mostrando como a arquitetura permanece relevante quando permite que os programas evoluam, em vez de exigir estabilidade.
À noite, o bazar quase desaparece. Estruturas temporárias somem. Os objetos vão embora. Em mercados como o Ballarò, em Palermo, quase nada resta fisicamente — mas a ordem espacial continua viva na memória coletiva. O mercado não depende de preservação formal. Ele sobrevive por ensaio diário.

Com o tempo, a questão muda: não é mais como projetar mercados, mas como os mercados moldam o comportamento espacial. O bazar ensina negociação, timing e convivência. Ele produz coletividade não pela forma, mas pelo uso contínuo. Não se trata de romantizar a informalidade, mas de ampliar o modo como a arquitetura observa o espaço vivido. Quando espaço e tempo são inseparáveis, a representação também precisa ser. O bazar não pede outra arquitetura. Ele pede outras formas de enxergar a arquitetura como ela é vivida.
Este artigo é parte dos Temas do ArchDaily: Construindo lugares de encontro. Mensalmente, exploramos um tema em profundidade através de artigos, entrevistas, notícias e projetos de arquitetura. Convidamos você a conhecer mais sobre os temas do ArchDaily. E, como sempre, o ArchDaily está aberto a contribuições de nossas leitoras e leitores; se você quiser enviar um artigo ou projeto, entre em contato.
Casa EJ / Leo Romano
Casa Crua / Order Matter
Casa AL / Taguá Arquitetura
Terreiro do Trigo / Posto 9
Casa São Pedro / FGMF
Casa ON / Guillem Carrera
Casa Tupin / BLOCO Arquitetos
EUA desmente Eduardo Bolsonaro sobre sanções a Alexandre de Moraes