Arquitetura

Casa de Sá / Tiago do Vale Arquitectos

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© João Morgado

Descrição enviada pela equipe de projeto. Aveiro preserva na sua malha urbana muitos dos mais emblemáticos testemunhos da Arte Nova em Portugal, um legado patrimonial que constitui, hoje, uma das expressões mais claras da identidade da cidade.

© João Morgado

A Arte Nova, aquando do seu surgimento, foi objeto de crítica acesa, tida por excessiva, sem utilidade funcional, dispendiosa, desfasada das exigências da modernidade emergente. Foi prontamente suplantada pela Arte Déco, pelo pragmatismo racional do Movimento Moderno e, sistematicamente, apagada (física e simbolicamente) sem hesitação. Só na segunda metade do século XX a Arte Nova começaria a ser revalorizada e recuperada: a celebração do passado mais remoto (e a inferiorização do presente e do passado recente) constitui uma pulsão recorrente na história da nossa civilização (mas não por isso menos equívoca).

© João Morgado
© João Morgado

No entanto sempre foi assim que se fez cidade -em camadas, em sobreposições, em revisitações- e é precisamente dessa estratificação de vozes e de épocas que nasce a riqueza da experiência urbana: Aveiro, nesse sentido, é paradigma dessa condição palimpséstica.

© João Morgado
© João Morgado

Na mesma rua onde concebeu a sua própria residência, o arquiteto Francisco Augusto Silva Rocha (figura central na consolidação desta linguagem na cidade) desenhou, no alvorecer do século XX, um edifício discreto, mas de inequívoca dignidade, apresentando como elementos mais singulares, no piso térreo, uma janela redonda, moldurada em cantaria, marcando o eixo da composição, e, no primeiro piso, vãos ornamentados com motivos florais, preparando o olhar para um friso cerâmico que, intercalado com triglifos de pedra, remata o conjunto. Nas águas-furtadas sobressai uma janela sob um pequeno telhado, encimada por um rosto feminino, reforçando a discreta narrativa que constitui a expressão particular deste conjunto. Tipologicamente, o alçado segue um padrão recorrente cidade: dois pisos, ritmados por três vãos, e encimados por uma janela central nas águas-furtadas. É em relação direta com este edifício que se ancora a Casa de Sá.

Planta – Térreo
Corte C2

Implantada num lote vazio, a Casa de Sá retoma, volumetrica, material e compositivamente, o léxico da casa de Silva Rocha, ecoando os ritmos verticais e horizontais da fachada, os alinhamentos altimétricos, a geometria da cobertura e a composição pentapartida do alçado. Mantém, igualmente, o esquema de dois pisos, três vãos e janela central nas águas-furtadas, com pátio superior nas traseiras, uma configuração recorrente na rua e em vários pontos da cidade. 

© João Morgado

Num gesto de contenção, o novo volume está ligeiramente recuado em relação ao alinhamento da rua, estabelecendo um diálogo moderado com o seu vizinho. Calcário, revestimento cerâmico, madeira e ferragens reinterpretam materiais e sistemas de construção anteriores através de meios contemporâneos. Para além da sua referência direta, o projeto também evoca as fachadas de madeira dos antigos armazéns de sal e os ritmos gráficos contidos dos tradicionais palheiros da Ria.

© João Morgado

Composta por duas moradias e construída com materiais locais e duráveis, a Casa de Sá afirma-se como um ensaio sobre continuidade e pertença: uma intervenção contemporânea enraizada na memória, atenta ao local e aberta ao futuro.

© João Morgado





Fonte: Archdaily

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