Arquitetura

Casa para Maria / Metriq Estudio

Publicado

sobre


+ 17

© Alex Santander

“Casa Para Maria” nasceu sem orçamento, em um contexto adverso, mas com uma ideia clara. Localizada no bairro popular La Gatazo, ao sul de Quito, surge no cenário pós-pandemia como resposta ao abandono de uma idosa cuja habitação estava à beira do colapso. O projeto foi concebido como um exercício de empatia, entendida não apenas como desenho, mas como ação, autogestão e compromisso social.

© Alex Santander
© Alex Santander

Desenvolvido sem fins lucrativos e ainda em etapa estudantil, o projeto tornou-se possível graças à articulação entre profissionais, vizinhos, instituições e empresas, evidenciando o papel ativo que a arquitetura pode assumir em contextos de vulnerabilidade. O processo iniciou-se com recursos mínimos: uma fundação pré-existente, materiais doados e mão de obra voluntária. Essas condições constituíram os pontos de partida que orientaram cada decisão projetual. Por meio de uma campanha de gestão de recursos — que incluiu solicitações a empresas, apoio institucional e crowdfunding — foi possível arrecadar cerca de 90% do orçamento necessário. As doações, tanto materiais quanto financeiras, não apenas viabilizaram a obra, como também influenciaram diretamente sua configuração espacial e construtiva.

Corte 2
Planta
Corte 1

O programa e a distribuição foram definidos a partir da compreensão da vida cotidiana de sua usuária, priorizando rotinas, necessidades e capacidades. A habitação organiza-se em três blocos interconectados: descanso, serviços e um espaço misto aberto para o exterior. Este último, concebido como sala de jantar-pátio, torna-se o coração do projeto, diluindo o limite entre interior e exterior e acolhendo tanto Maria quanto o sol que a abriga e os animais que a acompanham.

© Alex Santander
© Alex Santander
© Alex Santander

O conforto interno foi uma premissa central. O bloco de cimento, material integralmente doado, tornou-se o principal recurso construtivo, não como escolha formal, mas como condição de partida. A partir de suas propriedades, foram exploradas suas capacidades térmicas, estruturais e espaciais, utilizando-o tanto em fechamentos autoportantes quanto em elementos permeáveis. A cobertura translúcida permite a entrada controlada de luz e calor, enquanto o tramado, construído com o mesmo bloco, regula a ventilação, proporciona privacidade e reforça a segurança. Em coerência com essa lógica de aproveitamento, construiu-se um forro, restauraram-se móveis existentes e fabricaram-se novos com os materiais disponíveis, evitando desperdícios e consolidando uma estratégia de economia circular.

Fachada
Isométrica

Construída em quatro meses, “Casa Para Maria” transcende a escala doméstica não por sua capacidade de se repetir, mas pela forma como se aproxima de um conjunto específico de condições. Longe de propor uma solução replicável, o projeto assume a arquitetura como um exercício situado. A situação de Maria não é excepcional, mas representativa de uma problemática extensa e persistente em contextos de vulnerabilidade, frequentemente invisibilizada em uma cidade que avança rapidamente. Nesse sentido, o projeto propõe voltar o olhar para essas realidades, lembrando a capacidade da arquitetura de transformar espaços e vidas, mas evidenciando também seus limites quando as condições estruturais e as políticas públicas necessárias permanecem fora do alcance da disciplina.






Fonte: Archdaily

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recentes

Sair da versão mobile