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A herança deixada por imigrantes italianos na arquitetura da cidade de São Paulo é mais profunda e abrangente do que costuma indicar a narrativa tradicional. A partir do final do século XIX, impulsionada por políticas de substituição da mão de obra escravizada, a imigração italiana trouxe ao Brasil não apenas trabalhadores rurais, mas também profissionais urbanos qualificados — arquitetos, engenheiros, construtores e artesãos —, que participaram diretamente da consolidação da paisagem urbana paulistana em um momento decisivo de expansão e modernização.
“Na virada do século XIX para o XX, com a transição do Império para a República e a ascensão econômica de São Paulo impulsionada pelo café, a cidade passou por uma profunda metamorfose urbana: a antiga matriz colonial portuguesa foi sendo substituída por uma arquitetura de inspiração europeia, trazida por imigrantes, como parte de um projeto de modernidade que buscava simbolicamente superar o passado ibérico e escravista“, explica Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno, professora da FAU USP e coordenadora do projeto Plataforma on-line: Arquitetura italiana no Estado de São Paulo, que mapeia e reconhece obras de engenheiros, arquitetos e descendentes italianos em diferentes cidades do estado.
Ligados majoritariamente ao ecletismo, esses profissionais estiveram à frente de projetos de teatros, hospitais, mercados e edifícios públicos que ajudaram a moldar a imagem de uma cidade que buscava afirmar-se como metrópole moderna. “Não era uma produção que simplesmente copiava catálogos europeus. Os imigrantes italianos atuaram diretamente na urbanização. Eles contribuíram para a construção de cidades e da modernidade brasileira“, esclarece Miguel Antonio Buzzar, professor do IAU USP e também coordenador da plataforma.
A influência italiana, no entanto, não se restringe a edifícios monumentais nem a bairros tradicionalmente associados à imigração, como Mooca e Bexiga. Ela está disseminada por diferentes regiões da capital e também pelo interior paulista, em diversas tipologias. “Nossa preocupação não é preservar só joias da arquitetura. É preservar uma memória urbana, um contexto em que as pessoas se localizem socialmente e culturalmente“, completa Miguel.
Conheça alguns desses tesouros da herança italiana que compõem a paisagem urbana da cidade de São Paulo:
Edifício Conde Matarazzo – Palácio do Anhangabaú
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No Vale do Anhangabaú, o Edifício Matarazzo, de autoria do escritório de Ramos de Azevedo e com revisão do arquiteto italiano Marcello Piacentini, consolidou-se como marco do racionalismo italiano no Brasil. Concluído em 1954, apresenta composição simétrica, volumetria verticalizada e fachadas revestidas em mármore travertino. Desde 2004, é sede da Prefeitura Municipal de São Paulo.
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Ícone da verticalização paulistana, o Edifício Martinelli foi idealizado pelo imigrante italiano Giuseppe Martinelli e projetado pelo arquiteto húngaro William Fillinger na década de 1920. Primeiro grande arranha-céu da cidade, com 30 andares e estrutura em concreto armado, destaca-se pela composição eclética tripartida, rica ornamentação e volumetria monumental.
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A Pinacoteca de São Paulo teve seu edifício projetado pelo escritório de Ramos de Azevedo, com participação do arquiteto italiano Domiziano Rossi, originalmente para sediar o Liceu de Artes e Ofícios. Em estilo neoclássico, o prédio evidencia escala monumental, tijolos aparentes e composição com colunas e amplas janelas, refletindo a adoção de novas técnicas construtivas no início do século XX.
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Nos anos 1920, em resposta à modernização do abastecimento urbano e às novas exigências sanitárias, o Mercado Municipal de São Paulo foi projetado pelo arquiteto italiano Felisberto Ranzini em estilo eclético. Implantado em grande terreno, o edifício se destaca pela estrutura em concreto armado, amplos vãos, pé-direito elevado, rica ornamentação neoclássica e pelos vitrais de Conrado Sorgenicht Filho.
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Raro remanescente dos palacetes ecléticos que marcaram a Avenida Paulista no início do século XX, a Casa das Rosas foi projetada pelo arquiteto italiano Felisberto Ranzini, pelo escritório de Ramos de Azevedo. A residência apresenta quatro pavimentos, telhado inclinado em ardósia e rica composição ornamental típica do ecletismo.
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Também conhecido como Museu Paulista, o Museu do Ipiranga foi projetado pelo arquiteto italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi em estilo eclético, com inspiração em palácios europeus, e construído a partir de 1885 pelo também italiano Luigi Pucci. Primeira edificação monumental em tijolos da cidade, destaca-se pela volumetria simétrica, torreões laterais e rica ornamentação.
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Com projeto do arquiteto germano-brasileiro Franz Heep e inaugurado em 1965, o Edifício Itália ultrapassa 160 metros de altura. Sua estrutura em concreto armado e linguagem alinhada ao modernismo internacional se evidenciam na fachada marcada por brises e na composição esbelta, simbolizando o protagonismo da comunidade italiana no cenário urbano paulistano do século XX.
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Projetado em 1910 por Domiziano Rossi no escritório de Ramos de Azevedo e concluído por Felisberto Ranzini, o Palácio das Indústrias é um exemplar eclético de influência florentina, com estrutura metálica inovadora e tijolo aparente. Tombado pelos órgãos de preservação, teve usos diversos ao longo do século XX e, desde 2009, abriga o Museu Catavento, reafirmando sua vocação original para exposições e atividades culturais na capital.
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Erguido junto à Praça da Sé, o Palácio da Justiça, sede do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, foi projetado por Domiziano Rossi no escritório de Ramos de Azevedo e concluído por Felisberto Ranzini, inspirado no Palazzo della Giustizia de Roma. De linguagem neoclassicista e composição monumental, com estrutura em cimento armado e interiores ricamente decorados, o edifício foi tombado pelo Condephaat e permanece como símbolo do poder judiciário na paisagem de São Paulo.
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Na Avenida Paulista, o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) foi projetado pela arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi e inaugurado em 1968. Ícone do modernismo brasileiro, destaca-se pelo vão livre de 74 metros sustentado por quatro pilares vermelhos, solução estrutural que cria uma praça pública sob o edifício e reafirma a integração entre arquitetura, cidade e vida cultural em São Paulo.
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Fonte: Casa Vogue

