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“Urbanismo cidadão é um conceito que estamos promovendo a partir da América Latina”: Lucía Nogales da Ocupa tu Calle

Na América Latina, os encontros não nascem necessariamente de grandes gestos arquitetônicos ou de planos urbanos monumentais. Eles emergem do entre, do espaço intermediário: o pátio, a varanda, a calçada, o corredor compartilhado. Esses espaços, muitas vezes considerados residuais ou informais pela disciplina tradicional, são precisamente aqueles onde o cotidiano constrói vínculos.
Dessa cultura latino-americana surge uma lógica espacial na qual a vida cotidiana se organiza de maneira relacional e extensiva. Práticas como sentar à porta de casa, ocupar a calçada, brincar na rua, produzem uma cidade vivida para além dos limites formais do projeto.
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Mais do que resultado de carências infraestruturais, a ocupação desses espaços intermediários são expressão de uma cultura que privilegia o encontro e o improviso. A cidade latino-americana se constrói, assim, menos como objeto acabado e mais como processo cultural em permanente transformação, onde o uso cotidiano redefine continuamente o significado do espaço.
“Urbanismo cidadão é um conceito que estamos promovendo a partir da América Latina”: Lucía Nogales da Ocupa tu Calle
Desde essa perspectiva, a construção coletiva do lugar não se reduz ao desenho da forma ou à definição de usos programados, mas envolve criar condições para que as relações aconteçam espontaneamente. Uma experiência de coletividade a qual revela que o espaço só ganha sentido quando é apropriado, cuidado e negociado socialmente.
No repertório arquitetônico, os dispositivos de encontro se materializam em diferentes ambiências, e uma delas é o pátio. Como oposição ao cheio, o vazio do pátio representa a liberdade da apropriação não programada. No clima latino-americano, que quase sempre propicia atividades ao ar livre, o pátio media a transição entre o íntimo e o coletivo, abrigando, ao longo do dia, crianças brincando, adultos conversando, atividades de descanso ou celebrações.

Essa multiplicidade de usos revela uma arquitetura que não se organiza por programas rígidos, mas que aceita — e até incentiva — a sobreposição da vida. Autores como Herman Hertzberger já defendiam que espaços “incompletos” ou ambíguos são aqueles que melhor acolhem a apropriação cotidiana, justamente por não determinarem de forma absoluta como devem ser usados.
Longe de ser uma tipologia contemporânea, o pátio está presente na cultura latino-americana desde as primeiras aldeias indígenas. Em muitos povos originários, a organização do assentamento se estrutura em torno de um espaço central coletivo — uma clareira, terreiro ou pátio — que articula as moradias e concentra rituais, assembleias, festas. Esse espaço não é residual nem secundário, ele é o coração da vida social, política e simbólica da aldeia.
Presente na arquitetura atual, o pátio — como no Conjunto Habitacional Heliópolis, projetado pelo escritório Biselli Katchborian Arquitetos, em São Paulo — demonstra sua capacidade de estruturar a vida cotidiana para além da função residencial. Inserido em um tecido urbano denso e consolidado, o conjunto é organizado a partir de pátios e vazios indeterminados que ampliam as possibilidades de convivência informal, fortalecendo vínculos sociais e o reconhecimento coletivo do lugar.

Os dispositivos de pertencimento e encontro, porém, não se encerram nos limites da edificação. Eles se expandem e se transformam em quintais compartilhados, corredores comuns, praças improvisadas. O bairro latino-americano frequentemente opera como uma extensão da arquitetura, dissolvendo fronteiras rígidas entre o privado e o público.
Nesse contexto, equipamentos comunitários assumem um papel central como mediadores entre o espaço institucional e o uso cotidiano. As bibliotecas-parque da Colômbia exemplificam essa condição de maneira exemplar. Projetos como a Biblioteca Parque León de Greiff de Giancarlo Mazzanti, e o Parque Educativo Remedios, do escritório Relieve Arquitectura, operam menos como edifícios isolados e mais como infraestruturas sociais inseridas na lógica do bairro.

Nesses projetos, a arquitetura não se fecha em si mesma. Pátios, plataformas, praças, escadarias e vazios articulam-se com a rua e prolongam o espaço público para dentro do edifício, ao mesmo tempo em que devolvem o programa cultural à vida cotidiana do entorno. Uma abordagem que converge com as análises de Raquel Rolnik, a qual critica a excessiva mercantilização e normatização do espaço urbano e defende o direito à cidade como direito à apropriação, ao uso e à permanência. Ao se inserirem em territórios populares e dialogarem com as dinâmicas existentes, os equipamentos culturais colombianos não apenas oferecem acesso à cultura, mas reforçam redes sociais locais e ampliam as possibilidades de vida coletiva.

Mais além dos exemplos arquitetônicos propriamente ditos, a construção coletiva dos espaços na América Latina está profundamente ancorada em fundamentos subjetivos. “Construir um lugar” aqui é um processo em aberto. Não se trata de alcançar uma configuração ideal, mas de sustentar condições espaciais, sociais e políticas para que o espaço possa ser continuamente reinterpretado por seus usuários. Essa abertura implica aceitar o conflito, a sobreposição de usos e a transformação ao longo do tempo como partes constitutivas do espaço comum — não como falhas, mas como sua própria razão de ser.
No cotidiano latino-americano, essa lógica se manifesta em iniciativas como os “Espaços de Paz”, na Venezuela que, por meio da participação comunitária, lugares como terrenos baldios e áreas de lixão não regulamentadas são transformados, criando novas dinâmicas sociais e incentivando a convivência. Trata-se de uma prática que dialoga com abordagens de urbanismo colaborativo e cidadão, nas quais o espaço comum não é apenas projetado, mas também construído e mantido coletivamente.

Grande parte dos assentamentos urbanos na América Latina são considerados desenvolvimentos informais. No entanto, aquilo que costuma ser rotulado como “informal” revela, na prática, uma sofisticada inteligência espacial. Longe de representar ausência de ordem, a informalidade expressa negociação, adaptação e inclusão, operando a partir do uso cotidiano e da experiência compartilhada. Na América Latina, esses processos mostram como o espaço urbano é produzido coletivamente, em resposta direta às necessidades da vida em comum.
Essa leitura encontra um referencial central no livro a Estética da Ginga, no qual Paola Berenstein Jacques propõe compreender a cidade informal a partir da vivência urbana. A ginga não é um estilo, mas uma lógica espacial incorporada: um modo de ajustar continuamente o espaço, no qual o cotidiano se torna instrumento de produção urbana.
Ao deslocar o olhar da forma acabada para o processo, Jacques reposiciona a informalidade como um campo de aprendizado com capacidade de adaptação contínua, na sobreposição de usos e na invenção e construção coletiva de soluções provisórias. Um exemplo disso é o Sistema para Coletar Água da Neblina, construído de forma colaborativa por uma comunidade local e arquitetos na Colômbia, no qual uma infraestrutura simples responde diretamente às condições ambientais e às necessidades cotidianas do território. Mais do que um objeto técnico, o sistema revela como o fazer coletivo e o improviso informado podem melhorar o espaço e a qualidade de vida.

Mesmo entendendo que muitas dessas estratégias surgem em contextos marcados por carências estruturais e pela ausência do Estado, o aprendizado fundamental está em reconhecer o valor da abertura, da incompletude e da adaptação contínua como qualidades espaciais. Seja nos pátios que acolhem usos sobrepostos, nas arquiteturas que se estendem para o bairro, nas práticas comunitárias que constroem o comum ou nas soluções informais que respondem diretamente à vida cotidiana, emerge uma concepção de cidade menos normativa e mais relacional. Nela, o espaço não antecede o uso, mas se constrói com ele.
Nesse sentido, as lições latino-americanas apontam para uma maneira de projetar que se afasta da imposição formal e se aproxima do suporte. São arquiteturas e cidades que sustentam possibilidades. Do pátio ao bairro, do doméstico ao urbano, revela-se uma ética espacial em que a vida cotidiana não é um dado secundário, mas o próprio fundamento da construção do espaço.
Este artigo é parte dos Temas do ArchDaily: Construindo lugares de encontro. Mensalmente, exploramos um tema em profundidade através de artigos, entrevistas, notícias e projetos de arquitetura. Convidamos você a conhecer mais sobre os temas do ArchDaily. E, como sempre, o ArchDaily está aberto a contribuições de nossas leitoras e leitores; se você quiser enviar um artigo ou projeto, entre em contato.

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Descrição enviada pela equipe de projeto. O projeto teve início com a seguinte pergunta do cliente ao arquiteto:
“A sociedade ao nosso redor parece muito madura; no entanto, muitos edifícios estão sendo demolidos um após o outro, mesmo quando ainda têm vida útil suficiente. Isso não acontece justamente por causa da perda de algo essencial?”

Paralelamente, a ABERTO estreia a ABERTO Rua, iniciativa que leva mais de 15 obras comissionadas para o espaço público da Avenida Faria Lima, expandindo a mostra para o tecido urbano. “Na rua, a arte encontra quem não foi convidado”, afirma Filipe Assis, sintetizando o gesto de abrir a experiência artística ao acaso, ao trânsito e à diversidade da cidade.

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Descrição enviada pela equipe de projeto. Nicolas Hugoo Architecture concluiu 36 unidades de habitação social; a LA Architectures, uma biblioteca pública e 75 apartamentos familiares; e o atelier Régis Roudil, uma moradia estudantil com 75 apartamentos no bairro Paul Bourget, no 13º arrondissement de Paris. A operação de revitalização do bairro Paul-Bourget teve início em 2014, com o objetivo de romper o isolamento da área e assegurar a melhoria duradoura do panorama urbano para seus habitantes. Liderado pela Elogie Siemp e pela Semapa, e projetado pela Urban Act, este ambicioso projeto de renovação urbana possibilitou a criação de uma nova geração de habitações nesse terreno de 4 hectares, além de restaurar a presença de áreas verdes e da biodiversidade.

Casa EJ / Leo Romano
Casa Crua / Order Matter
Casa AL / Taguá Arquitetura
Terreiro do Trigo / Posto 9
Casa São Pedro / FGMF
Casa ON / Guillem Carrera
Casa Tupin / BLOCO Arquitetos
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