Arquitetura
Escola Primária Taiping, Keelung / KHAA (Kuo+Huang and Associates)

Descrição enviada pela equipe de projeto. Situada na encosta do porto oeste, a Escola Primária Taiping é testemunha das ascensões e declínios da cidade de Keelung. Fundada na década de 1960 para atender os filhos dos trabalhadores do cais ocidental, a escola viveu seu período de maior vitalidade naquele contexto portuário. No entanto, com a transformação das atividades industriais, o êxodo populacional e a queda da taxa de natalidade, a instituição foi desativada em 2017.
Nessa cidade montanhosa e labiríntica, imaginamos um percurso capaz de conectar a montanha ao mar: partindo do píer do porto, subindo pela Lane 113 guiado pela sinalização, atravessando o antigo campus da Escola Taiping e alcançando as trilhas de caminhada atrás da colina, entrelaçando cidade e floresta, o construído e o natural. Mas como transformar essa imaginação em realidade?
Começamos derrbando o muro, abrindo o campus antes fechado para a cidade como espaço público. Todas as novas intervenções foram construídas em madeira: uma escada em balanço que convida à ascensão; um pequeno pavilhão na cobertura, de onde se pode contemplar o porto e ouvir as buzinas das balsas que chegam; e, na extremidade do terreno, uma passarela aérea de 18 metros que se projeta até encontrar a trilha de caminhada além do morro. O edifício escolar original apresentava um ritmo estrutural claro, com duas escadas que o dividiam em três partes — frente, meio e fundos. Na seção frontal, próxima à entrada, implantamos uma livraria vibrante, em referência ao antigo papel da escola como espaço de aprendizado. Abrimos trechos das lajes e das paredes para permitir a continuidade espacial e trazer a paisagem da montanha para o interior.
Funcionando como a sala de leitura de Keelung, a livraria também se afirma como uma sala de estar acolhedora para toda a cidade. As antigas carteiras e cadeiras da escola foram preservadas para que os visitantes possam ler ou descansar, estabelecendo uma nova e poética relação com o fluxo de pessoas que passa pelo local. A seção posterior mantém a intervenção leve realizada pelo governo municipal alguns anos antes. Já na parte central, optamos deliberadamente por reduzir o edifício a um estado de ruína, removendo lajes, portas e janelas de alumínio, algumas divisórias internas e até os estrados elevados das salas térreas. Esse gesto estende o pavimento da praça para dentro do edifício, borrando intencionalmente o limite entre interior e exterior.
Floresta e cidade, passado e presente, convergem nesse lugar. Os quadros-negros gastos, as cores envelhecidas e as texturas mais antigas do espaço — antes ocultas — foram cuidadosamente reveladas, convidando-nos a observá-las novamente com reverência. Ao percorrer os corredores onde crianças brincavam e entrar nas salas onde aulas eram ministradas, memórias individuais são despertadas e se entrelaçam em uma lembrança coletiva, passando a integrar o inconsciente compartilhado da cidade.
Que o renascimento desta escola primária abra um caminho para uma nova simbiose: uma travessia onde montanha e mar se encontram, e uma plataforma a partir da qual possamos refletir sobre a história do porto e imaginar o futuro de Keelung. Compartilhar memórias queridas é também uma forma de devolver vida à cidade.
Fonte: Archdaily