Arquitetura
Galeria de Arte Ibraaz / Counterspace

Descrição enviada pela equipe de projeto. Este espaço foi concebido e projetado pela arquiteta e diretora artística Sumayya Vally, do estúdio Counterspace, cuja prática é reconhecida internacionalmente por redefinir tipologias culturais a partir da comunidade, da memória e do ritual. Pensado para desdobramentos futuros — “uma reunião de reuniões” —, o projeto da sede foi idealizado para crescer e se transformar ao longo do tempo, em resposta direta às formas como é utilizado e habitado. Em seu cerne, trata-se menos de uma arquitetura estática e mais de uma coreografia contínua do espaço, ativada pelo diálogo, pelo aprendizado e pela troca. Como uma estrutura viva, que se desenvolve por meio da adaptação, do uso e da resposta coletiva, o projeto incorpora elementos capazes de assumir múltiplas configurações, acolhendo e provocando uma pluralidade de encontros. “Dada a velocidade quase alucinatória com que o projeto surgiu, nossa abordagem reflete esse momento — incremental e viva”, afirma Sumayya Vally, arquiteta-residente do Ibraaz.
“Quando fui convidada a trabalhar no projeto, à medida que o edifício começava a ser habitado, passei a pensá-lo como ‘uma reunião de reuniões’ — com as arquiteturas de cada espaço derivadas de tipologias de vida coletiva: oula, maktaba, minassa, majlis. Essa primeira configuração se expandirá e se consolidará com o tempo, com uma atitude mais próxima à de uma cidade do que à de um edifício — cada nova camada como um traço de nossos relacionamentos em transformação e das comunidades que aqui se reúnem. Gosto da ideia de que os espaços do Ibraaz sejam concebidos a partir da linguagem do lar — uma cozinha, um majlis, uma sala de oração, uma biblioteca. As infraestruturas desses espaços são pensadas para receber as obras dos artistas que, em sua essência, também se dedicam ao acolhimento do outro. Cada espaço carregará a essência de seu tema, de modo que a própria estrutura da instituição se torne inerentemente arquitetônica e inerentemente generosa. Sempre acreditei na construção de pertencimento dentro dos espaços institucionais, e acredito que isso acontece de forma mais potente quando as obras são oferecidas com cuidado, em formatos que ressoam com nossas comunidades.” — Sumayya Vally
A abordagem de Vally tem como base sua aclamada pesquisa para o Pavilhão Serpentine (2021), na qual mapeou os espaços de encontro de comunidades diaspóricas e migrantes em Londres como arquivos vivos de pertencimento. Para o Ibraaz, essa investigação se estende à Tunísia, geografia de origem da fundação, situando a nova sede dentro de um continuum de práticas culturais que atravessam fronteiras. Até o momento, o projeto envolveu colaborações entre o Counterspace e o Blocksfinj, em Beirute, e Local Industries, em Belém, Palestina, construindo-se a partir do conhecimento e da experiência dos fabricantes da região. Ancorado em tipologias de encontro que historicamente sustentaram a vida comunitária na África e no mundo árabe, o projeto privilegia a flexibilidade e a possibilidade de múltiplas configurações. Cada espaço é concebido para acolher diferentes usos, permitindo que o edifício se adapte de forma orgânica à medida que sua comunidade se expande.
No nível da rua, a Maktaba (livraria) e a Oula (cafeteria) funcionam como convites abertos à cidade, compondo uma fachada ativa que traduz a ética de abertura, generosidade e diálogo do Ibraaz. O Majlis (espaço de assembleia) configura o principal salão expositivo no térreo, concebido simultaneamente como lugar de encontro e debate. No pavimento inferior, a Minassa (plataforma) assume a forma de um teatro destinado a exibições e performances musicais. Já o segundo andar abriga a Iqra, a biblioteca, ampliando o convite ao engajamento, à leitura e à reflexão. Em conjunto, esses espaços constroem uma fachada interativa e performática para o Ibraaz, reafirmando os valores institucionais de abertura, generosidade e diálogo.
O edifício será escrito por sua comunidade. Concebido para acolher reuniões em todas as suas formas — ritual, debate, troca, celebração —, ele permite que esses encontros se inscrevam, ao longo do tempo, na própria estrutura do espaço. “Sumayya Vally e a equipe do Counterspace estabelecem um diálogo trans-histórico com a arquitetura neoclássica tombada como Grau II do Mortimer Street, 93. Sua abordagem privilegia o fragmento como forma de compreender o todo”, afirma Shumon Basar, curador e conselheiro estratégico do Ibraaz. “O que há de silenciosamente radical na maneira como o Ibraaz convidou Counterspace a transformar seu novo lar é que, em vez de aguardar que todo o edifício — que também inclui o Great Portland Street, 43 — esteja completamente transformado para então receber o público, os visitantes passam a experimentar o próprio processo de mudança arquitetônica. Trata-se de um projeto pensado como sedimentação, no tempo e no espaço.”
Essa abordagem permite que o Parlamento dos Fantasmas, de Ibrahim Mahama, atue de forma fragmentária, em que o salão ornamentado e esbranquiçado — agora denominado Majlis — passa a ser assombrado por pisos, prateleiras e cadeiras ganesas do período colonial. Assim, ao longo da apresentação inaugural do Ibraaz, emergem cartografias complexas da África, inscritas tanto nas raízes do Counterspace em Joanesburgo quanto na Tunísia ancestral da Kamel Lazaar Foundation e no afrofuturismo político do The Otolith Group. O projeto reafirma, assim, o compromisso do Ibraaz com a produção cultural entendida como uma prática viva e em constante transformação — capaz de honrar as histórias de encontro enquanto imagina novas possibilidades para o futuro.
Counterspace passa agora a encontrar também em Londres um lar dentro do espaço do Ibraaz: um lugar onde as ideias e questões que moldam a prática podem ser exercitadas, testadas e compartilhadas em tempo real. “Fiel às nossas origens em Joanesburgo, fico entusiasmada em estar situada em um espaço de discurso e comunidade. Essas tipologias — extraídas da Tunísia, de Londres e de geografias de toda a África e do mundo árabe — carregam ressonâncias de uma memória cultural compartilhada, oferecendo continuidade entre lugares e tempos e permitindo que novas formas de reunião emerjam, em um momento em que solidariedade e pertencimento são essenciais”, afirma Vally.
Fonte: Archdaily