Arquitetura
Passarela Mirante Treng-Treng / ARQ/Sostenible

Descrição enviada pela equipe de projeto. O projeto e obra da Passarela Mirante “Treng – Treng” nasce do fundo binacional denominado Chile-México, para a educação e valorização de estuários e zonas úmidas em territórios de povos originários de ambos os países, gestão que foi coordenada em paralelo pelos ministérios de meio ambiente e municípios envolvidos nas regiões da Araucanía no Chile e da Baja California no México. A proposta chilena foi desenvolvida a partir do trabalho colaborativo com comunidades Mapuche Lafquenche (Pessoas do Mar), que habitam ao redor da zona úmida de Queule e da Ilha dos Pinos, zona de estuários extremamente ricos em ecossistemas de alto valor natural e paisagístico, com presença de espécies endêmicas de flora e fauna, as quais são patrimônio natural somado ao patrimônio cultural pela presença deste povo originário que habita há séculos essa costa.
Para o desenvolvimento conceitual da proposta arquitetônica, e a partir do diálogo com os habitantes locais, foram analisados os contextos sociocultural e geográfico do território, reconhecendo que as zonas úmidas costeiras de Araucanía se formaram, em sua maioria, a partir do grande cataclismo de 1960 no Chile — evento natural que deu origem ao maior terremoto e ao maior tsunami já registrados na história. Esse acontecimento se relaciona diretamente à mitologia mapuche de Kai Kai e Treng Treng, um relato ancestral que aborda a relação dos seres humanos com as serpentes da água (Kai Kai) e da terra (Treng Treng): a primeira associada aos tsunamis e inundações, e a segunda representada pelas colinas que protegem aqueles que nelas se refugiam. A partir desse diálogo mitológico entre serpentes icônicas, a passarela-mirante foi batizada de Treng Treng, concebida como uma serpente de terra que avança em direção à serpente de água, configurando uma experiência de reconhecimento entre a natureza e os seres humanos no território de Araucanía.
O projeto enfrentou diversos desafios, uma vez que o único local disponível situava-se em um terreno alagável, às margens do rio e da zona úmida de Queule, contíguo ao tráfego de veículos da balsa que realiza a travessia para a Ilha dos Pinos — uma zona de intenso fluxo veicular, mas que, ao mesmo tempo, oferece amplas vistas para o habitat de numerosas aves endêmicas e migratórias, constituindo um ponto estratégico para sua observação, ainda que marcado por alto nível de poluição decorrente da atividade antrópica. Diante desse contexto, o percurso pedonal da passarela foi projetado com critérios de acessibilidade universal e com um afastamento progressivo do caminho viário à medida que avança em direção à margem fluvial, conduzindo os usuários a uma experiência de imersão na natureza, intensificada ao chegar no mirante, que é protegido lateralmente para se isolar do caminho em sua fachada sul e, simultaneamente, camuflar visualmente os fotógrafos na fachada norte durante a observação das aves. Ao longo do percurso, são apresentados seis painéis com infografias que reúnem relatos científicos e ancestrais, explicando a importância das zonas úmidas costeiras de Araucanía.
Fonte: Archdaily