Arquitetura
Residência AV / YAMA architects

- Área:
400 m²
Ano:
2025
Fabricantes: Cocoon, NIC, Villeroy & Boch
Descrição enviada pela equipe de projeto. A Residência AV é uma casa-pátio localizada em um bairro residencial denso de Bruges, na Bélgica. Projetado pelo escritório YAMA architects, o projeto responde a um pedido aparentemente paradoxal: o desejo de forte conexão com o entorno combinado a uma necessidade igualmente intensa de privacidade. O cliente, que mora sozinho, sentia-se atraído pela presença social e pela sensação de segurança do bairro, mas buscava uma casa que se afastasse dos olhares diretos e favorecesse um modo de viver mais introspectivo.
Em vez de resistir às limitações da proximidade, o projeto as assume como ponto de partida. A privacidade não é construída pela distância nem pela opacidade total, mas por meio de sequências espaciais, orientação e uma lógica arquitetônica voltada para dentro. Essa abordagem levou à concepção de uma casa-pátio, onde a noção tradicional de jardim frontal ou de fundos é substituída por um jardim interno, localizado no coração da residência. A casa se volta para si mesma, criando um mundo protegido sem negar seu contexto urbano.
O pátio constitui o núcleo espacial e experiencial da casa. Todos os principais ambientes se organizam ao redor desse jardim interno, permitindo que luz natural, ar e as mudanças das estações penetrem profundamente no interior, mantendo ao mesmo tempo uma forte sensação de recolhimento. Sala de estar e cozinha se voltam uma para a outra através do pátio, estabelecendo um diálogo visual constante e reforçando a continuidade da arquitetura. Circular pela casa é, em muitos momentos, olhar novamente para ela — uma experiência em camadas que oscila entre dentro e fora, primeiro plano e fundo.
Em vez de oferecer vistas únicas e enquadradas, o pátio está sempre reenquadrando a casa por meio de aberturas, reflexos, sombras e perspectivas cuidadosamente compostas. A luz entra de forma indireta, filtrada por profundidade, paredes e vegetação. Não há dramatização: a luz se deposita, permanece e migra suavemente pelas superfícies ao longo do dia. O pátio funciona como um reservatório de luz, que a absorve e redistribui com sutileza.
A circulação segue um ritmo deliberadamente desacelerado. Ao contornar o pátio, o percurso convida à pausa e à atenção. Não existe um ponto de vista dominante; a casa se revela como uma sequência de momentos que orientam o movimento de forma intuitiva. A privacidade surge não como isolamento, mas como confiança — moldada por lógica espacial, não por barreiras defensivas. As aberturas são precisas, os enquadramentos são editados, e toda exposição é intencional. A arquitetura se define tanto pelo que mostra quanto pelo que escolhe não revelar.
Internamente, uma paleta de materiais contida une os espaços. A repetição não busca uniformidade, mas tranquilidade. As superfícies fluem de um ambiente para outro, permitindo que luz e textura se sobreponham à forma. No térreo, a cozinha ancora a vida cotidiana e mantém uma relação constante com o pátio. Pedra e madeira são aplicadas com clareza e precisão, enquanto os detalhes recuam para que a experiência se dê mais pelo toque do que pela ênfase visual.
O pavimento superior abriga os usos mais íntimos da casa. Aqui, a arquitetura se retrai ainda mais, permitindo que o silêncio e a imobilidade predominem. A luz se torna mais suave, as texturas mais táteis, e pequenas variações atmosféricas indicam a transição entre espaços compartilhados e privados. Em toda a casa, o mobiliário é desenhado sob medida e integrado à arquitetura, como elementos polivalentes que sustentam morar, trabalhar e reunir.
No fim, a Residência AV expressa uma mudança deliberada da imagem externa para a experiência interior. Ao organizar a vida cotidiana em torno de um jardim enclausurado, a casa constrói uma estrutura serena, atenta e duradoura para o habitar — onde privacidade e abertura coexistem por meio de contenção, proporção e tempo.
Fonte: Archdaily