Artigo Relacionado
Mercados públicos: arquitetura do encontro e da troca

![]()
![]()
![]()
![]()

2024

Descrição enviada pela equipe de projeto. O AME Studio foi concebido como uma expressão arquitetônica versátil e comedida, refletindo nossa afinidade por uma arquitetura modesta e discreta. O projeto vai além do simples atendimento a um conjunto de demandas funcionais: trata-se de criar um espaço que acolha e potencialize o trabalho artístico e artesanal da proprietária, ao mesmo tempo em que permita transformações futuras e flexibilidade de uso. O briefing inicial, embora modesto, era multifacetado, refletindo os interesses ecléticos da cliente. Ela precisava de um ambiente que comportasse um tear jacquard, uma pequena galeria para exibir suas pinturas, um depósito de materiais, uma área de trabalho em equipe, um estúdio privativo, uma sala de espera e uma boutique. Mais do que atender a essas exigências específicas, o objetivo era criar um espaço evolutivo e adaptável, capaz de abrigar também oficinas, exposições e eventos colaborativos.

Propusemos um ambiente de trabalho que promovesse reflexão e contemplação. A intenção era conceber uma estrutura que evocasse, simultaneamente, solidez e leveza — uma forma monolítica, semelhante a uma rocha escavada, que parece flutuar sutilmente sobre o solo. A combinação de aberturas em madeira e vidro reforça essa ambiguidade, introduzindo transparência em uma massa arquitetônica robusta.

Planejado no eixo leste-oeste, o estúdio expõe suas fachadas mais longas ao norte e ao sul, otimizando a entrada de luz natural e organizando as funções em sequência linear. A transição espacial ocorre de forma fluida, desde a entrada a leste até o estúdio privativo da cliente a oeste. Uma laje de concreto aparente paira sobre o foyer de entrada, criando uma chegada intimista. Um paredão de concreto aparente com 12 metros de comprimento, ladeado por um espelho d’água paisagístico, forma um pano de fundo sereno que se estende para delimitar um pequeno teatro ao ar livre no canto sudeste do terreno.

A sala de espera, voltada para um jardim exuberante ao norte, atua como limiar entre o mundo externo e o santuário criativo interno. Integrados às placas metálicas de acabamento a quente na face sul, estão ocultos a copa e o lavabo. A partir desse ponto, os visitantes são conduzidos a um espaço central com pé-direito duplo (6×12 metros), dedicado à exposição de tecidos manuais e à imersão no ofício da tecelagem. Uma escada em balanço de concreto armado, localizada no limite oeste do salão, leva ao pavimento superior, onde estão o estúdio pessoal da cliente e uma galeria para suas pinturas. O estúdio se estende até um deck, criando uma conexão fluida entre interior e exterior.

Externamente, o estúdio é revestido com finas faixas de pedra natural em tons neutros, conferindo uma aparência monolítica e tátil. Portas metálicas delgadas, caixilhos de madeira e lajes de concreto aparente compõem uma paleta material coesa, equilibrando texturas brutas e simplicidade refinada. Internamente, paredes caiadas de branco neutralizam a rusticidade da fachada, servindo de pano de fundo discreto para as obras em exposição.


O piso em terrazzo percorre todo o estúdio, reforçando a estética atemporal e resistente do espaço. Um delicado embutido de mármore branco, em padrão fluido que remete aos pontos de uma tapeçaria observada durante o processo de concepção, serpenteia pelo chão. Além de evocar poeticamente o movimento do tecido ao ser desenrolado, esse caminho em mármore atua como guia intuitivo para os visitantes, sugerindo um percurso orgânico e ritmado.




Clarabóias pontuam a cobertura, proporcionando luz natural difusa nos espaços de pé-direito duplo. Essa estratégia elimina sombras duras e o ofuscamento direto, garantindo uma ambiência serena e bem iluminada. Apesar de sua presença arquitetônica marcada externamente, os interiores são banhados por uma luz suave. A orientação solar do edifício, aliada ao uso estratégico das aberturas zenitais, reduz a necessidade de iluminação artificial e climatização. Materiais de origem local — como pedra natural, terrazzo, madeira e vidro — reforçam o compromisso do projeto com a sustentabilidade ambiental.

A paisagem, composta por plantas tropicais de folhas largas e arbustos floridos, suaviza o volume construído, promovendo integração com o entorno. Lajes em balanço generosas projetam-se para criar decks e canteiros ajardinados ao longo das bordas norte e sul, consolidando o diálogo entre arquitetura e paisagem. Sistemas de captação de águas pluviais e manejo hídrico eficiente complementam a abordagem ambiental do projeto.

Mais do que um edifício, o AME Studio é uma celebração da materialidade, da luz e da poética espacial. Cada elemento, da presença monolítica às sutilezas táteis, expressa um profundo compromisso com o ofício. O equilíbrio entre solidez e transparência, entre fechamento e abertura, resulta em um ambiente ao mesmo tempo ancorado e libertador — um espaço onde a arte e a arquitetura dialogam em silêncio, mas com profundidade.

Seu desenho contido, porém marcante, faz com que o edifício não apenas sirva de pano de fundo para a criação artística, mas se torne parte ativa do processo criativo. As transições suaves entre volumes, o movimento fluido da luz por aberturas cuidadosamente posicionadas e a composição sensível de materiais resultam em um ambiente que estimula a introspecção e a inovação. Mais do que cumprir uma função, o estúdio imprime uma presença duradoura por meio de sua estética atemporal e clareza espacial. É um espaço que evolui com sua ocupante, acompanhando o ritmo da criação artística enquanto preserva um senso de permanência e serenidade.


A arquitetura costuma ser representada como um objeto estável: um edifício capturado em um momento de clareza visual, isolado das contingências ao redor. Plantas, cortes e fotografias prometem legibilidade ao suspender o tempo. No entanto, muitos dos espaços públicos mais duradouros do mundo resistem completamente a esse modo de representação. Eles não foram feitos para serem compreendidos de imediato, nem revelam sua lógica apenas pela forma. Sua inteligência espacial emerge aos poucos — pela repetição, pela ocupação e pela duração.
O bazar se insere com firmeza nessa categoria. Ele não pode ser entendido por um único desenho ou por uma elevação finalizada. Sua organização não é fixa, é ensaiada diariamente. O que o sustenta não é apenas a composição arquitetônica, mas o tempo compartilhado, a memória coletiva e padrões de uso construídos ao longo dos anos. A convivência no bazar não nasce de decisões formais de projeto; ela é produzida por encontros repetidos, proximidades negociadas e familiaridade social acumulada no tempo.
![]()
![]()
![]()
![]()


Observar um bazar com atenção é reconhecer a arquitetura operando como um sistema temporal. Mercados não funcionam de maneira contínua e uniforme. Eles se montam, se intensificam, pausam, se transformam e se dissolvem — muitas vezes dentro de um único dia. Da atividade noturna do Mercado de Flores Dadar, em Mumbai, à precisão matinal do Mercado de Tsukiji, em Tóquio, esses ambientes são regidos menos por fechamentos espaciais e mais por coordenação no tempo.
Mercados públicos: arquitetura do encontro e da troca
A regulação acontece por repetição, não por imposição. A orientação se dá pela familiaridade, não pela sinalização. A memória assume o papel que, em geral, caberia às paredes e aos limites físicos. Ao longo do dia, ferramentas arquitetônicas convencionais começam a perder relevância. Plantas não conseguem registrar o movimento; diagramas de zoneamento falham em captar a sobreposição. Em seu lugar, é preciso outro tipo de leitura espacial — uma que reconheça o tempo como estrutura organizadora e o comportamento como um material arquitetônico central.

Entre a meia-noite e o início da manhã, muitos mercados se formam fora do olhar da cidade. No Mercado de Flores KR, em Bengaluru, essa lógica temporal está ligada ao papel da cidade como polo agrícola e comercial regional. As flores chegam durante a noite, vindas de distritos vizinhos e outros estados, sincronizadas com a demanda do atacado nas primeiras horas do dia e com a necessidade de evitar o calor e o trânsito diurnos. O mercado ocupa um tecido urbano denso, sobreposto por rotas de transporte, instituições religiosas e ruas comerciais históricas. Sua montagem segue o hábito, não a alocação formal.

Superfícies temporárias são estendidas. Feixes de flores definem bordas e caminhos. Poucos estandes existem no sentido arquitetônico tradicional, mas os limites espaciais são claramente compreendidos. Os vendedores retornam aos mesmos pontos todos os dias, guiados pelo reconhecimento social, não por marcações físicas. O território se mantém pela continuidade, não pela posse. A ordem espacial é construída coletivamente, sem infraestrutura visível ou controle centralizado. Aqui, o bazar revela uma inteligência arquitetônica raramente reconhecida: ambientes feitos pela repetição, e não pela permanência; legibilidade sustentada pela memória, e não pelo fechamento material.
Nas primeiras horas da manhã, a atividade se intensifica. Troca no atacado, compras no varejo, logística e demandas rituais se sobrepõem num intervalo de tempo extremamente comprimido. A proximidade do mercado com ruas comerciais e áreas de culto o insere num tecido urbano historicamente denso. Do ponto de vista do planejamento, essa concentração costuma ser lida como desordem. No nível do chão, porém, o espaço opera com precisão.

Os fluxos se ajustam em torno de carrinhos, motos e carregadores. Certos caminhos se alargam ou se estreitam conforme o volume, não conforme a dimensão física. Limiares mudam de função sem alteração arquitetônica. O que parece caótico de cima funciona como um sistema calibrado por hábito, familiaridade e ajuste mútuo. Aqui, a densidade não indica falha do planejamento — indica sucesso da organização temporal. A arquitetura atua menos como separação e mais como estrutura para negociação constante.
Com o avanço do dia, a intensidade diminui. A ênfase passa da transação ao descanso, à manutenção e à troca social. Em mercados como o de Mapusa, em Goa, essa desaceleração é estrutural. O ritmo do mercado se vincula mais aos ciclos agrícolas semanais e sazonais do que à demanda diária. O pico ocorre pela manhã; depois, o tempo se alonga.

Nessas horas, o mercado se expande e se contrai no tempo, não no espaço. A forma construída oferece sombra, bordas e superfícies duráveis, mas recua em protagonismo. A organização se dá por expectativa mútua. Conversas se estendem. Assentos improvisados surgem onde nada foi projetado. O mercado continua ocupando o espaço sem produzir troca material. Essa pausa não é ineficiência — é inteligência espacial. Ela permite que o sistema se recupere e se sustente ao longo das semanas e estações.
À medida que o comércio se encerra, muitos mercados se transformam profundamente. No Campo de’ Fiori, em Roma, a retirada das barracas revela uma praça cívica. O mesmo chão que sustentava caixas e circulação pela manhã passa a acolher encontros e lazer à noite.

Essa mudança acontece sem qualquer intervenção arquitetônica ou reprogramação formal. O uso se transforma, mas a memória do espaço permanece. Mesmo sem as barracas e objetos, os vestígios do mercado continuam legíveis, e as pessoas ainda reconhecem onde a atividade acontecia, orientando-se pela familiaridade — não por placas ou dispositivos de design. O espaço não precisa anunciar sua nova função; ele simplesmente a incorpora. O êxito desses ambientes não está na “flexibilidade” como recurso projetado, mas na ausência de restrições. A arquitetura se mantém aberta o suficiente para acolher diferentes condições sociais ao longo do tempo, sem impor hierarquias nem fixar permanências. Ao evitar definir o uso com excesso de precisão, o mercado garante continuidade entre o comércio e a vida pública, mostrando como a arquitetura permanece relevante quando permite que os programas evoluam, em vez de exigir estabilidade.
À noite, o bazar quase desaparece. Estruturas temporárias somem. Os objetos vão embora. Em mercados como o Ballarò, em Palermo, quase nada resta fisicamente — mas a ordem espacial continua viva na memória coletiva. O mercado não depende de preservação formal. Ele sobrevive por ensaio diário.

Com o tempo, a questão muda: não é mais como projetar mercados, mas como os mercados moldam o comportamento espacial. O bazar ensina negociação, timing e convivência. Ele produz coletividade não pela forma, mas pelo uso contínuo. Não se trata de romantizar a informalidade, mas de ampliar o modo como a arquitetura observa o espaço vivido. Quando espaço e tempo são inseparáveis, a representação também precisa ser. O bazar não pede outra arquitetura. Ele pede outras formas de enxergar a arquitetura como ela é vivida.
Este artigo é parte dos Temas do ArchDaily: Construindo lugares de encontro. Mensalmente, exploramos um tema em profundidade através de artigos, entrevistas, notícias e projetos de arquitetura. Convidamos você a conhecer mais sobre os temas do ArchDaily. E, como sempre, o ArchDaily está aberto a contribuições de nossas leitoras e leitores; se você quiser enviar um artigo ou projeto, entre em contato.
Timothée Chalamet cresceu no Manhattan Plaza, um edifício de 46 andares localizado no bairro de Hell’s Kitchen, em Manhattan. Concluído em 1977, o complexo oferece moradias subsidiadas para famílias de renda média, dentro do programa habitacional Mitchell-Lama da cidade de Nova York. O prédio abriga muitos artistas, o que lhe rendeu o apelido de “o quarto da Broadway” (Broadway’s Bedroom). Entre outros moradores famosos estão Colman Domingo, Alicia Keys, Angela Lansbury, Mickey Rourke e Larry David (que inspirou o personagem Cosmo Kramer na série Seinfeld). Em certa época, Samuel L. Jackson chegou a trabalhar ali como segurança.

![]()
![]()
![]()
![]()


Descrição enviada pela equipe de projeto. Este edifício é a nova sede do nosso escritório de arquitetura e da nossa oficina de carpintaria. Por que nós, um escritório de arquitetura, decidimos criar uma oficina de marcenaria? Em Okinawa, tornou-se comum que muitos edifícios comerciais utilizem estruturas de concreto armado combinadas com caixilhos de alumínio. No entanto, em grande parte de nossos projetos, optamos por projetar e instalar caixilhos de madeira nas aberturas — elementos com os quais as pessoas entram em contato direto no cotidiano e que influenciam significativamente a qualidade do espaço.

Casa EJ / Leo Romano
Casa Crua / Order Matter
Casa AL / Taguá Arquitetura
Terreiro do Trigo / Posto 9
Casa São Pedro / FGMF
Casa ON / Guillem Carrera
Casa Tupin / BLOCO Arquitetos
EUA desmente Eduardo Bolsonaro sobre sanções a Alexandre de Moraes